segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O QUE PODEMOS APRENDER COM RACISMO NO BRASIL


No mês do Dia da Consciência Negra o país foi surpreendido por um vídeo cujo conteúdo apresentava o âncora de um dos Jornais de maior audiência da TV, Willian Waack, numa clara manifestação de racismo. No vídeo, o jornalista prepara-se para realizar uma entrevista com um convidado quando alguém ao lado de fora do estúdio toca uma buzina de um automóvel várias vezes. Willian Waack olha para o lado de fora e diz: “Tá buzinando por quê, seu merda?” Depois diz: “Eu sei quem você é”, olha para o entrevistado e completa, quase sussurrando: “É preto”. O convidado faz-se de desentendido e aproxima-se de Waack que repete, “é preto”. O homem solta uma risada, talvez consentindo, talvez constrangido, e Waack conclui, entre risos: “É coisa de preto. Com certeza!”

As imagens viralizaram na internet e soube-se, então, que o vídeo havia sido abafado pela emissora de televisão responsável pelo jornal por mais de um ano. Diante da repercussão negativa, a emissora de televisão, que, aliás, quase não tem negros em seu quadro de funcionários de destaque, afastou o repórter e emitiu uma nota em tom formal na qual afirmava que a política da empresa é “visceralmente contra o racismo e afasta o jornalista Willian Waack até que a situação seja esclarecida... no vídeo alguém dispara uma buzina e Waack, contrariado, faz comentários, ao que tudo indica, de cunho racista... Waack afirma não se lembrar do que disse já que o áudio não tem clareza mas pede sinceras desculpas àqueles que se sentiram ultrajados pela situação. Willian Waack é um dos mais respeitados profissionais brasileiros, com um extenso currículo de serviços prestados ao jornalismo [retifica-se: à emissora em questão] e blá, blá blá para conversar com Waack e decidir como se desenrolarão os próximos passos”. Ou seja, tergiversou, tergiversou, e não admitiu o erro do apresentador. Tal nota não poderia ser mais oportuna, Willian Waack é conhecido por suas posições de direita e defesa intransigente dos interesses da emissora na qual trabalha, como as reformas impopulares do governo Temer. Porém, não deixa de ser descabida. Se, “ao que tudo indica”, Waack não se lembra e o áudio não tem clareza, então por que as sinceras desculpas àqueles que se sentiram ultrajados, não pela situação, mas por comentários de cunho racista? E o fato do jornalista ser considerado pela emissora um dos mais respeitados profissionais brasileiros não justifica sua atitude. No mais, passos não se enrolam nem se desenrolam... Ganhar tempo e esperar baixar a poeira é o real conteúdo da nota. Mas temos uma sugestão ainda melhor à emissora: contratar um perito, destes mercenários, como aquele ex-professor, que conseguem provar até que o 7 a 1 da Alemanha contra o Brasil na Copa do Mundo foi miragem provocada por uma ilusão de óptica graças a um defeito coletivo na lente das câmaras...

O mais espantoso, porém, é que toda a imprensa marrom se solidarizou com o jornalista. Alguns colegas de profissão, todas brancos, também vieram em sua defesa. Notórios pela parcialidade e discursos que fomentam o ódio, estes colegas tentaram desviar o foco da polêmica com argumentos dos mais estapafúrdios e disparatados, minimizando o fato do repórter ter cometido um crime. Pouco importa se Waack é ou foi racista, a culpa é da esquerda, dos policamente corretos, das feministas, dos negros!

Sim, a culpa é dos negros, que ousam reivindicar por direitos iguais... De fato, é coisa de preto!

A reação da imprensa apenas expressa bem a mentalidade perversa e escravocrata de alguns setores da sociedade brasileira. O que podemos aprender com o racismo brasileiro é que o Brasil é um grande latifúndio tal como descreve José Saramago no seu romance “Levantado do chão”. A mensagem é implícita, mas inequívoca. Diz o seguinte: um homem branco e rico pode ser, sim, racista, mas desde que em seu foro íntimo, entre amigos e familiares, nunca em público, pois é preciso manter o manto da hipocrisia, o mito do homem cordial e a democracia racial, e outras bobagens do gênero.

Nada mais racista do que afirmar que no Brasil não existe racismo.


A Liberdade é Negra
Fecaloma
 
Vivemos numa democracia racial
A lei diz que o branco é meu igual
A estatística diz que sou a maioria
A ideologia diz que sou a minoria
A mídia diz que no Brasil não há preconceito
Não há luta de classes, tudo é perfeito
Mas a televisão não é meu espelho
A televisão não é meu espelho
O galã da novela não é negro
Mas parece gringa aquela modelo
Na revista de bacana só lourinho na capa
Sorrisos indígnos sem vergonha na Caras

Na política , não sou eu que estou lá
Na universidade não me deixaram entrar
Na rua ou no shopping, seguem meus passos
A polícia espreita tudo que eu faço
E a história esconde que fomos seqüestrados
Por uma elite de brancos civilizados
Que a custa do nosso trabalho enriqueceu
Nos expulsou da festa e a maior fatia do bolo comeu

Negro, negro é lindo mas se tenta ser alguém
Acusam-lhe de racista e não pode ser ninguém
Negro, ponha-se no seu lugar
E o seu lugar é a liberdade, lutar por identidade
Negro, negro é lindo mas se tenta ser alguém
Acusam-lhe de fascista e não pode ser ninguém
Mas você, você tem raça
E eu também, também sou negro
E me chamo, me chamo Liberdade

E ninguém vai descolorir

Porque eu sou livre
Livre! Livre! Livre! Livre!

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

ATRAVESSANDO A GEOGRAFIA, MARX, LEFEBVRE E OS SITUACIONISTAS


Atravessando a Geografia, Marx, Lefebvre e os Situacionistas (volume 1 – 2017), publiciza artigos cuja marca é a formação de longa duração propiciada pelo encontro dos pesquisadores no Laboratório de Geografia Urbana – LABUR – do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. O livro é composto por nove artigos que, valendo-se dos conteúdos mais íntimos da Geografia – principalmente a Geografia Urbana -, de Karl Marx e de Henri Lefebvre, apresentam uma leitura possível do real. Metodologicamente, a costura mais interna consiste em “partir de”: os textos partem dos autores lidos, sem com eles se conformar, pois buscam atualizar – seja a ciência, seja o pensamento de Marx, seja o de Henri Lefebvre. Por fim, trata-se do primeiro volume da série, ou volume de inauguração de um projeto editorial que pretende, igualmente, ser persistente – e de longa duração – motivando assento aos novos pesquisadores, bem como assegurando espaço àqueles que são as referências, a partir de quem tudo foi possível.

Compreende o livro os seguintes escritos:

Prefácios
O conhecimento como histórico, social e coletivo e os grupos de formação acadêmica do LABUR  – Amélia Luisa Damiani
Atravessados pela Geografia, invadidos pela autogestão – Ricardo Baitz


Atravessando a Geografia, Marx, Lefebvre e os Situacionistas

Ou é centro, ou é não centro. Ou é centro, ou é periferia. – Alexandre Souza da Rocha

(Des)encontros entre a Geografia e o urbano: a contribuição de Henri Lefebvre – Amélia Luisa Damiani

Espaço e Paisagem: rascunhos para estudo “espaço” e da “paisagem” – Jean Pires de Azevedo Gonçalves (colaborador deste blog).

Diferença e diferencialismo: para uma crítica da homogeinização – Marcio Rufino Silva

Urbanização e Marxismo – Odette Carvalho de Lima Seabra

O trabalho de campo em geografia urbana: da quantidade à qualidade, ou dos procedimentos formais à implicação e transdução – Ricardo Baitz

O espaço contraditório da mobilidade urbana – Evânio dos Santos Branquinho


Cartografia influencial: notas de um trabalho de campo – Alessander David Figueiredo Junior, Guilherme Leria Sanches, Marcelo Baliú Fiamenghi, Marcus Vinicius Bortoli de Moraes e Tomás Carrera Massabki

Outros escritos

Momento Situacionista Autônomo Temporário: notas sobre as possibilidades de um espaço-tempo revolucionário – Rachel Pacheco Vasconcellos

Exílios e pseudo-vida: ações possíveis entre hegemonias totalizantes – José Dario Vargas Parra

Permissão de reprodução


As orelhas do livro, que anunciam os termos que articularam os autores e a perspectiva dos textos, é feita pelo Memorial de Concurso de Alexandre Souza da Rocha, a quem a obra é dedicada.


O lançamento do livro está programado para a ocasião do XV Simpósio Nacional de Geografia Urbana (SIMPURB) que ocorrerá entre os dias 20 a 23 de novembro, em Salvador, Bahia.


sábado, 4 de novembro de 2017

A ESTÓRIA DA RIQUEZA DO BRASIL


Mal o livro do sociólogo Jessé Souza “A elite do atraso: da escravidão à lava jato” saiu do prelo, a reação das elites não se fez por esperar, com a publicação de “História da riqueza do Brasil”, de Jorge Caldeira. O lançamento do referido livro não poderia ter sido mais bizarro: no televisivo Programa do Bial, e contou com a aparição de uma das figuras mais sinistras do mundo universitário. Quem? FHC. Elementar, meu caro Watson! O coronel tucano, que se tornou, graças aos dólares da CIA, via Fundação Ford, o “príncipe da sociologia (sic)”... quer dizer, “privataria”, foi convocado pelo intelectual de Big Brother... [pausa para rir]... Pedro Bial, numa das situações mais insólitas e patéticas da sociologia made in Brazil, para referendar o tal livro como, em suas palavras, um “clássico”. (Em se tratando de Fernando Henrique, melhor seria dizer crássico). Como se um livro se tornasse clássico, de um dia para a noite, por decreto, e prescindisse do debate intelectual, do tempo histórico, da repercussão acadêmica e social etc. etc. etc. Curiosamente, assim como o livro de Jesse Souza, o de Caldeira também se pretende revisionista, mas, sub-repticiamente, reforça todos os preconceitos da literatura canônica que “A elite do atraso” joga por terra. Na verdade, a “História da riqueza do Brasil” é uma total impostura. Nietzsche costumava criticar a tendência moderna em que o estilo jornalístico torna-se modelo de professores universitários como degeneração da cultura e da arte em entretenimento. Mas o que diria o grande filósofo alemão do marketing substituir a pesquisa acadêmica? É bem disso que se trata a “História da riqueza do Brasil”: uma obra de marqueteiro. Primeiro, porque o autor trata a velha econometria como se fosse uma grande novidade metodológica. Sim, o tal Jorge Caldeira relativiza a exaustiva pesquisa documental e deduz suas conclusões de preguiçosos modelos matemáticos e estatísticos. (Diga-se de passagem, nem os neoliberais da Escola Austríaca dão qualquer crédito à econometria, facilmente manipulável). Daí em diante tudo é permitido, como a singular afirmação de que os tupis eram empreendedores... (Desculpem-me, mas vou ter de usar de um expediente adequado a tamanha, digamos assim, trollagem: kkkkkkkkkkkkkkkkkk). Sim, pois, tais quais as inúmeras pérolas de FHC, nas palavras do autor, “tecnicamente, um catador de papelão é um empreendedor”. (kkkkkkkkkkkkk). Talvez, deva ter sido por isso que o capitalismo desenvolvido no Brasil nunca vingou, haja vista que, após o genocídio indígena, apenas 0,4 da população brasileira é atualmente composta por estes arrojados empreendedores nativos que, suponha-se, graças à catequese jesuítica (não a calvinista!), descobriram em si, no fundo de suas almas, o espírito capitalista na fumaça do cachimbo do pajé. Mas o genocídio é apenas um detalhe e racismo é tudo que não existe na sociedade brasileira, como todos nós, obviamente, sabemos! Continuando, segundo Caldeira, no Brasil, desde tempos imemoriais... sempre reinou a boa e velha democracia!... quer dizer, excetuando o “Estado Novo” (Getúlio). A julgar por esta afirmação, o voto de cabresto e de clientela é a mais pura definição de democracia e que Rousseau vai plantar batatas! Depois destes e outros disparates, que Marx chamaria de robsonadas e um historiador sério, anacronismos, o autor sustenta que, entre o fim do século XIX e 1970, o Brasil foi o país que mais cresceu economicamente no mundo e coloca todos os governos nacionalistas como responsáveis por desastres econômicos, ou melhor, as figurinhas carimbadas de Jango, Geisel, Lula e Dilma. Elementar, meu caro Watson! Na verdade, o livro de Caldeira segue a tradição que vai desde Joaquim Nabuco, Barão de Rio Branco e, claro, FHC, e, portanto, apregoa uma estreita dependência do Brasil aos EUA, sob o eufemismo de globalização. Outro argumento interessante é a afirmação de que, enquanto o executivo sempre foi instável, o parlamento sempre funcionou muito bem. Sem dúvida, com os milhões de reais pelos quais cada parlamentar recebe à surdina para legislar em causa própria e a favor da impunidade, nada poderia ser mais estável! Ora, se o executivo é frágil e o parlamento é forte, então presidente para quê? Sim, se você pensou no parlamentarismo, touché! Eis o programa completo do PSDB!!! Mas você deve estar se perguntando quem é esse Jorge Caldeira – e eu também me fiz essa pergunta – e a resposta, depois de muito procurar no Google, pode ser encontrada num verbete de cinco linhas da Wikipédia. Aqui vai o principal sobre o autor: “consultor do Projeto Brasil 500 Anos, da Rede Globo, editor-executivo da Revista Exame, editor do Caderno Ilustrada e da Revista da Folha, do jornal Folha de S. Paulo, editor de economia da Revista Isto É e editor da Revista do Cebrap” (Fonte: Wikipédia). Viu? Só gente fina. Quanto ao Cebrap, de FHC, é o caminho mais fácil para ser aprovado num concurso do prédio do meio... Ainda na entrevista ao intelectual de Big Brother Bial, o tal Jorge Caldeira mostrou-se alinhado com as reformas do governo Temer, e vangloriou-se por ter trabalhado 45 anos (o número não é apenas uma coincidência) e estar prestes a se aposentar com 50, contribuindo religiosamente a previdência social. (Evidentemente, FHC, em sua catedrática manifestação, omitiu o detalhe de que ele, FHC, se aposentou aos 37 anos). Esta afirmação de Jorge Caldeira é mais uma de suas sandices. Como se a atividade suave e bem remunerada de porta voz da mídia pudesse ser comparada ao trabalho suado e mal remunerado de um trabalhador braçal da construção civil, da metalurgia, da agroindústria canavieira, ou de motorista do transporte coletivo, ou mesmo professor do ensino público etc., etc., etc. O destino da miséria de a “História da riqueza do Brasil” já está traçado. Vai parar ao lado dos crássicos de seu mestre FHC: ninguém lê.

domingo, 15 de outubro de 2017

JESSÉ SOUZA E A ELITE DO ATRASO


Em “A elite do atraso: da escravidão à lava jato”, o sociólogo Jessé Souza defende a tese de que a elite brasileira, leia-se oligarquia, para assegurar seus privilégios, nunca teve compromisso com um projeto de desenvolvimento para o país. Segundo o sociólogo, com a ascensão da classe média nos anos 30, a elite tratou de capturar esta classe por meio de um acordo que visava somente garantir seus privilégios de classe dominante, em direta contradição aos interesses gerais da sociedade. Para isso formou um quadro de profissionais técnicos e especializados subjugados e oriundos da classe média, bem como açambarcou toda opinião pública, por meio do controle da imprensa e da formação de uma intelectualidade servil. É neste contexto que surge a USP, encarregada de elaborar o pensamento da formação da sociedade brasileira forjado sobre bases equivocadas – o patrimonialismo e o populismo – quando o que a caracteriza, de fato, é a escravocracia. Tal ideologia de verniz universitário contaminou toda a intelectualidade, sendo reproduzida indiscriminadamente tanto pela direita quanto pela esquerda, e desviou o foco dos verdadeiros problemas sociais. Sobre Sérgio Buarque de Hollanda e Raimundo Faoro, Jessé Souza em entrevista concedida ao vlog o Cafézinho não tem meias palavras: "Se você lê os caras (...) um liberalismo mais conservador, mais absurdo, mais pueril, mais superficial, mais mal feito do que desses caras, impossível!!!" (Jessé de Souza). 

É preciso muita coragem para um intelectual no Brasil criticar o totalitarismo desta igreja, denominada USP, que aqui chamamos de Santo Ofício Universal do Estado de São Paulo. Recusar-se ao beija-mão submisso, ao clientelismo autoritário, ao culto da autoridade, à reverência à hierarquia, ao assédio moral e até mesmo sexual, sob a sanção da USP, é o mesmo que ser excomungado de todos os círculos acadêmicos em âmbito nacional. Não é à toa que a USP é tão recalcitrante ao sistema de cotas, encontrando apoio até mesmo nos seus quadros de intelectuais supostamente de esquerda.

Jessé Souza é também autor de “A Tolice da Inteligência Brasileira” e “A Radiografia do Golpe” e pode ser considerado um dos intelectuais brasileiros mais importantes da atualidade. Portanto, o livro “A elite do atraso: da escravidão à lava jato” é imprescindível para entender a fundo as formas de dominação no Brasil, da produção ideológica e a própria sociedade brasileira, após cem anos de mentiras. Já é leitura obrigatória.

A ELITE DO ATRASO: DA ESCRAVIDÃO À LAVA JATO
Editora LeYa Brasil: São Paulo, 2017. (240 páginas).

domingo, 1 de outubro de 2017

A FAGOCITOSE DO CAPITALISMO

Como a ação das próprias leis conduz à catástrofe histórica do sistema capitalista


Alejandro Acosta

A lei do valor é o motor que regula o funcionamento da sociedade capitalista. Ela determina o fluxo e o refluxo dos capitais dos vários setores da economia, de acordo com a lucratividade.

Conforme Karl Marx demonstrou detalhadamente na sua obra prima, O Capital, o único gerador de valor é o trabalho humano. As máquinas são amortizadas e, nos procedimentos contábeis, simplesmente repassam, de maneira gradual, o investimento realizado como custo. Na circulação, no processo de compra e venda, os ganhos e perdas têm a tendência a nivelar-se. A fonte de lucro dos capitalistas é a mais-valia, a diferença entre os salários pagos e o valor criado pelos trabalhadores.

A concorrência leva a que a massa geral de mais-valia gerada na sociedade seja repartida de maneira tendencialmente homogênea entre os capitalistas, independentemente do ramo de atividades. Hoje, a taxa de lucro das operações industriais nos países desenvolvidos é extremamente baixa. Por esse motivo, o grosso das manufaturas têm sido transferido a países onde a mão de obra é, ou foi, na prática, semiescrava.

O lucro da GM, por exemplo, vem das fábricas localizadas na China e no Brasil e, ainda mais, do Banco GM que participa, em larga escala, da especulação financeira, vendendo, comprando e apostando em títulos públicos e privados, inclusive os derivativos financeiros que, entre outros, contêm os títulos dos financiamentos de automóveis.

As bolhas financeiras quando estouram têm como finalidade, própria do funcionamento do capitalismo, ajustar as taxas de lucro à média, como pode ser visto claramente na crise financeira de 2008 e como poderá ser visto nas bolhas que deverão estourar no mundo todo no próximo período. O inacreditável volume de capital fictício acumulado no mundo, devido à falta de colocação produtiva, torna esse processo muito mais explosivo.

Ao mesmo tempo, as multinacionais imperialistas impõem preços de monopólio e por meio do controle do estado burguês passaram a controlar todos os aspectos da sociedade burguesa.

A LEI DA TENDÊNCIA À QUEDA DA TAXA DE LUCRO

A concorrência entre os capitalistas conduz à procura pelo aumento da produtividade e à redução de custos, mediante a implementação de novos processos e da automação industrial, em cima de máquinas mais modernas, o que leva à redução do número de trabalhadores. Por esse motivo, a mais-valia extraída apresenta a tendência a cair o que provoca a queda dos lucros que representam o motor da economia capitalista.

Na tentativa de conter a ação da lei, os capitalistas aumentam a intensidade do trabalho, reduzem os salários, por meio de processos de terceirizações, promovem ataques por meio dos programas de austeridade e usam trabalho escravo em proporções nunca antes vistas nos últimos séculos.

Mas todas essas tentativas não conseguem abortar a ação da lei, apenas a contem temporariamente. Ela provoca o aumento das lutas operárias. Na China, por exemplo, o salário médio dos trabalhadores passou de US$ 30 na década de 1980, para mais de US$ 400 nas principais cidades do país. No Vietnam, que se pretendia que substituísse, parcialmente, à China, nos últimos seis anos, os salários passaram de US$ 45 para US$ 100. Agora, os monopólios tentam, sempre com “mais do mesmo”, a mesma operação na Birmânia.

A tentativa de agilizar os processos de vendas e a diminuição dos estoques, para acelerar a rotação do capital, tem se chocado com o crescente empobrecimento das massas. A crise de superprodução está na base da crise capitalista atual. O aumento exponencial do crédito, em cima de recursos públicos, está levando o mundo inteiro a enormes bolhas financeiras. No Brasil, o “modelo de crescimento Lula” se esgotou e deixou como saldo a disparada da inadimplência em níveis históricos, com o governo fomentando-o ainda mais devido à falta de alternativas.

A desvalorização do capital constante empregado (principalmente, as máquinas e equipamentos) e, fundamentalmente, a crise capitalista, que leva à destruição em larga escala das forças produtivas permitem, junto com superexploração dos trabalhadores, que os mecanismos capitalistas não engripem. Ao mesmo tempo, as crises aumentam as compras e consolidações, reforçando ainda mais a monopolização da economia. O grosso da competição agora se processa em escala mundial por grandes multinacionais imperialistas que, na disputa do mercado mundial, levam o parasitismo a níveis absurdos, além de impulsionarem o militarismo e as guerras.

O AUMENTO DA INTERVENÇÃO DO ESTADO BURGUÊS NA ECONOMIA

O principal mecanismo que permitiu ao capitalismo superar a depressão da década de 1930 foi a escalada da intervenção do estado burguês na economia. O keynesianismo foi a corrente da economia burguesa que deu corpo teórico à necessidade do estado promover investimentos com o objetivo de servir como motor da economia. Os gastos militares dispararam e se estruturou o chamado complexo industrial militar nos países desenvolvidos que disparou o parasitismo em cima dos recursos públicos pelas multinacionais.

A crise capitalista de 2007-2008 enterrou o papel redentor do estado burguês, que agora aparece como o grande concentrador da crise capitalista mostrando o crescimento, nas entranhas da velha sociedade, da nova sociedade socialista. O gigantesco e crescente endividamento público demonstra que as crises não reciclam o capitalismo. Elas permitem a continuidade do funcionamento, mas ao custo do contínuo enfraquecimento. A comparação que ilustra graficamente este fenômeno seria o envelhecimento de um ser humano que na velhice continua vivendo, mas com doenças, e turbinado com remédios e pontes de safena.

Trata-se de um conteúdo cada vez mais parasitário e podre protegido por uma casca que é o estado burguês. O papel histórico da revolução proletária, que representa o último ato da evolução histórica do capitalismo, reside na destruição dessa casca e na expropriação dos meios de produção do punhado de parasitas financeiros que domina o mundo.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

EXCLUÍDOS DIGITAIS

Se você está assustado com tanto ódio na internet, talvez os dados abaixo o ajudem a entender um pouco a origem dele.

Segundo pesquisas por domicílios realizadas por diversos institutos de pesquisa, dentre os quais o PNAD-IBGE, no Brasil em 2015:

54,9% domicílios estavam conectados à internet. Equivalente a 102 milhões de habitantes (a população total do Brasil é de 190 milhões de habitantes).

- Perfil dos internautas por classe social:
Classe A: 95%;
Classe B: 82%,
Classe C; 57%;
Classe D/E, 28%.

- Domicílios conectados à internet por região:
Sudeste: 17,4 milhões de domicílios conectados e 11,7 milhões desconectados.
Nordeste: 7 milhões de domicílios com internet e 10,5 milhões sem internet.
Região Sul: 5,4 milhões conectados e 4,9 milhões desconectados.
Centro-Oeste: 2,5 milhões com internet e 2,7 milhões desconectados.
Norte: 1,9 milhões de domicílios conectados e 3,1 milhões desconectados.

- Domicílios que têm computador, por classe social:
Classe A: 99%;
Classe B: 84%;
Classe C, 47%;
Classe D/E: 13%.

Os celulares passaram a ser o único telefone de 58% das casas brasileiras. O fenômeno é mais forte nas regiões Norte (74,7%) e Nordeste (72,8%).

- Estudantes:
Rede privada: 97,3%.
Rede pública: 73,7%.

- Por rendimento:
92,1% das pessoas que ganham mais de 10 salários mínimos acessaram a internet.
32,7% das pessoas sem rendimento ou que ganham até um quarto do salário mínimo acessaram a internet.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

REVOLUÇÃO 4.0 OU A QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL


A Quarta Revolução Industrial, de Klaus Schwab

Supercomputadores móveis, cada vez mais onipresentes. Robôs inteligentes. Carros autoguiados. Aperfeiçoamento do cérebro através da neurotecnologia. Manipulação genética. São algumas das evidências de uma mudança dramática que está ocorrendo à nossa volta a uma velocidade inimaginada.

Autor do livro “A quarta revolução industrial” (The Fourth Industrial Revolution), o professor alemão Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial, há mais de quatro décadas envolvido nos assuntos de interesse global, está convencido de que estamos no início de uma nova revolução industrial que vem mudando fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos.

As revoluções industriais anteriores libertaram a humanidade das limitações naturais, possibilitando pela primeira vez a produção em massa e a aproximação de milhares de pessoas por meio da rede internacional de computadores. A Quarta Revolução Industrial é, no entanto, profundamente diferente, pois se define por uma série de inovações tecnológicas que estão diluindo as fronteiras entre o mundo físico, a robótica e a biologia, o que alteraria drasticamente a ciência, a economia, a produção e até mesmo as ideias sobre o que é o ser humano.

Conforme o autor, estas mudanças poderiam indicar uma nova era extremamente promissora para a humanidade. O desenvolvimento atual produziu um enorme potencial tecnológico para unir milhões e milhões de pessoas ao redor do planeta, melhorou drasticamente a eficiência das instituições e organizações sociais, além de gerar ativos para a regeneração do meio ambiente devastado pelas revoluções industriais anteriores.

Entretanto, Schwab aponta muitas reservas, algumas perturbadoras. Segundo ele, é muito provável que as instituições sociais não estejam prontas para se adaptarem às rápidas mudanças em curso; os governos poderão negligenciar o emprego e a regulamentação das novas tecnologias na economia, o que afetaria o desenvolvimento econômico; as inconstâncias políticas poderiam criar instabilidades à segurança mundial; a desigualdade poderá aumentar ainda mais; e as sociedades tenderiam a se fragmentar.

No livro, o autor delimita a nova revolução ao contexto histórico atual e detalha as principais tecnologias que impulsionaram as transformações, discutindo seus impactos no cenário político, empresarial, social e mesmo na esfera dos indivíduos, sugerindo respostas para enfrentá-los. No cerne de sua análise está a convicção de que esses impactos podem estar sob o controle da humanidade desde que se fomente um dialogo interdisciplinar entre as diversas áreas do conhecimento e, daí, aproveitar as oportunidades surgidas das propostas vislumbradas.

Neste sentido, Schwab faz um apelo para que todos diversos setores da sociedade e da política “se unam para construir um futuro comum, colocando as pessoas acima de tudo, pois, lembra o autor, que a tecnologia é, antes de mais nada, uma ferramenta criada por pessoas para pessoas”.

Entender como a humanidade pode se beneficiada e superar os desafios desta revolução foi o tema principal da reunião anual do Fórum Econômico Mundial em 2016, realizado justamente sob o lema "Controlar a Quarta Revolução Industrial".

Os dados das pesquisas de grande amplitude, as grandes ideias e o conhecimento das redes globais, por líderes empresariais, governamentais, da sociedade civil e de jovens líderes, no Fórum Econômico Mundial, é analisado em profundidade pelo livro, numa perspectiva de como a humanidade pode assumir a responsabilidade coletiva de garantir um futuro melhor para todos.

NOTA DO BLOG: Se a teoria das etapas da Revolução Industrial já é em si bastante controvertida, o que pensar então de uma nova fase industrial? Mais estranho ainda é quem propõe a ideia: o Fórum Econômico Mundial. A questão principal é saber por que o Fórum Econômico Mundial trabalha com esta hipótese, que poderia ser compreendida como uma agenda capitalista com fins estratégicos e de mercado. Por isso o tema foi postado, porque se entende que, falso ou verdadeiro, o assunto é atual e fomenta o debate num terreno teórico tão movediço. Mas vindo de quem vem, não pode ser boa coisa.