quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A FICÇÃO DO DIREITO


E chegamos a esse terrível lodaçal em que todos os sentimentos são falseados, em que não se pode querer a justiça sem ser chamado de interesseiro ou vendido. As mentiras se espalham, as histórias mais tolas são reproduzidas pelos jornais sérios, a nação parece atingida de loucura, quando bastaria um pouco de bom-senso para recolocar as coisas no lugar. Ah! como seria simples, digo outra vez, no dia em que os mestres ousarem, apesar da multidão amatilhada, ser homens corajosos! (Émile Zola, Eu acuso!).

Vivemos em um país onde todos são suspeitos de cometer algum crime. Basta uma denúncia e uma investigação forjada para confirmar as suspeitas, pois tudo é passível de ser tipificado, para usar o jargão jurídico, um crime. No Brasil, atualmente, a casta do judiciário assalta a sociedade e viola todas as leis, apesar da Constituição. Perseguem implacavelmente seus “inimigos”, criminosos por decreto. A justiça se coloca acima de tudo, até mesmo da justiça. Porém, ao contrário do que dizem, não vivemos num estado de exceção, mas, diante da verdadeira essência do Estado de direito quando, este, perde o controle da dominação das leis. Lembro-me, muitos anos atrás, de que certa vez, ao precisar recorrer à justiça, meu advogado ter me dito categoricamente: “Você não tem direito”. Sim, meu defensor disse com todas as letras: “Você não tem direito”. Até o Maluf tem direito; pelo menos direito a muitos advogados... Até o Escadinha tem direito... O Al Capone... Mas eu, cidadão comum, honesto, trabalhador, não tenho direito. Convicto, no entanto, dos meus direitos, e motivado por um profundo sentimento de justiça, fui procurar outro advogado. Ao contratá-lo e alegar minha ignorância a respeito de detalhes de um aspecto obscuro de uma legislação específica, aquele replicou, em tom de censura: “A nenhum brasileiro é dado o direito de desconhecer as leis”. Mesmo sendo leigo em assuntos jurídicos, tenho curso superior completo, pós-graduação, especialização, proficiência em língua estrangeira etc. Imagino então os milhões e milhões de brasileiros que não tiveram a mesma oportunidade de estudar, por falta de recursos, num país tão desigual, e sequer imaginam um dia cursar uma faculdade. Muitos analfabetos funcionais. Muitos analfabetos, ainda. Infelizmente. A nenhum brasileiro é dado o direito de desconhecer as leis. A que nível do ridículo pode chegar um ser humano! Como alguém pode falar tamanha bobagem com tanta seriedade e orgulho? A nenhum brasileiro é dado o direito de desconhecer as leis. Eis a utopia da justiça: um mundo tal qual uma Torre de Babel habitada por juristas. Melhor não seria dizer, presídio? A nenhum brasileiro é dado o direito de desconhecer as leis. Ou seja, o único direito de fato é vedado ao cidadão comum. A verdade é que ninguém conhece as leis, nem mesmo os juristas. E mesmo que, supondo, estes acreditassem conhecer, isto pouco importaria. A justiça é como um demônio que muda de forma toda vez que é pega pelo rabo, enquanto prepara o bote fatal. A nenhum brasileiro é dado o direito de desconhecer as leis. E toda uma nação é condenada, por princípio. Não pelo seu suposto crime (o desconhecimento das leis), mas pelo crime de seus juízes. A justiça não é para todos, apenas para poucos. A justiça é a arma dos verdadeiros criminosos, porque, na história da humanidade, só os assassinos são inocentes.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

FIM DAS GUERRAS A PREÇO DE OCASIÃO

The Saker: Para EUA, fim das "guerras a preço de ocasião"


Do blog do Alok, originalmente em The Unz Review.

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu.

Com o golpe dos neoconservadores contra Trump agora já completado (pelo menos no objetivo principal, i.e., com Trump já neutralizado, o objetivo subsidiário, i.e., tirar o presidente da presidência, pode ser adiado para algum momento, não se sabe quando, no futuro), o mundo tem de lidar, mais uma vez, com situação muito perigosa: o Império Anglo-sionista está em rápida decadência, mas os neoconservadores voltaram ao poder. E farão de tudo, qualquer coisa que esteja ao alcance deles, para deter e reverter aquela decadência.

É também dolorosamente óbvio, se se observa a retórica dos neoconservadores, além de suas ações passadas, que a única “solução” que eles anteveem para se safar é iniciar algum tipo de guerra.

Assim sendo, a questão mais premente passa a ser: “quem o Império agredirá dessa vez?” Será a República Popular Democrática da Coreia (“Coreia do Norte”)? Será a Síria? O Irã ou a Venezuela? Atacarão na Ucrânia, talvez? Ou os neoconservadores procurarão guerra com Rússia ou China?

Claro que, se assumimos que os neoconservadores são completamente loucos, nesse caso tudo é possível, desde os EUA invadirem o Lesotho, até atacarem simultaneamente com armas termonucleares a Rússia e também a China. Absolutamente não deixo de considerar a insanidade e a depravação dos neoconservadores, mas não vejo sentido algum em analisar racionalmente o que é claramente irracional, no mínimo porque todas as modernas teorias da contenção sempre pressupõem um “ator racional”, não um maluco em operação suicidária delirante.

Para nossos objetivos, contudo, assumiremos que resta algo que se assemelha a pensamento racional em Washington DC; e que, mesmo que os neoconservadores decidam lançar alguma operação completamente ensandecida, alguém que comande as alavancas nos níveis superiores de poder encontrará a coragem necessária para impedir que aconteça, como fez o Almirante Fallon, com seu “não no meu horário de serviço!” (o qual provavelmente impediu que os EUA atacassem o Irã em 2007). Então, assumindo-se que ainda haja circulante um mínimo de racionalidade, onde se deve esperar que o Império ataque a seguir?

O cenário ideal

A essa altura todos nós sabemos exatamente o que o Império mais gosta de fazer: definir um país fraco para ser o alvo, subvertê-lo, acusá-lo de violar direitos humanos, agredi-lo com sanções econômicas, disparar agitações e tumultos de rua, intervir militarmente em “defesa” da “democracia”, da “liberdade” e da “autodeterminação” (ou algum outro desses incontáveis conceitos igualmente pios e sem significado). Mas até aí, é só a ‘receita política’. O que quero examinar é o que chamo de “American way of war”, ou seja, o modo como comandantes dos EUA gostam de combater.

Durante a Guerra Fria, grande parte do planejamento, das providências para suprir as forças, da doutrina e do treinamento focava-se em combater grande guerra convencional contra a União Soviética; e era claramente definido que essa guerra convencional podia escalar e converter-se em guerra nuclear.

Deixando de lado por um momento o aspecto nuclear (que não é relevante para nossa discussão), eu caracterizaria como “pesada” a dimensão convencional desse tipo de guerra: centrada em grandes formações (divisões, brigadas), envolvendo muitos blindados e artilharia, esse tipo de guerra envolveria gigantescos esforços logísticos de ambos os lados e isso, por sua vez, envolveria ataques profundos em forças de escalão secundário, obrigava a fazer reserva de suprimentos, a ter eixos estratégicos de comunicações (estradas, ferrovias, pontes, etc.) e uma defesa em profundidade em setores chaves.

O campo de batalha sempre seria imenso, centenas de quilômetros para os dois lados da (ing.) FEBA (Forward Edge of Battle Area), o chamado “front” ou “linha de frente” do combate. Em todos os níveis, tático, operacional e estratégico, as defesas estariam preparadas em dois, possivelmente três escalões.

Para lhes dar uma ideia das distâncias envolvidas, o segundo escalão estratégico dos soviéticos na Europa estava tão atrás, que chegava à Ucrânia! (Por isso, já que tocamos no assunto, a Ucrânia herdou depósitos gigantescos de munição da União Soviética; e por isso também jamais houve escassez de armas de nenhum dos lados para fazer a guerra civil ucraniana). Com o colapso do Império da União Soviética, toda essa ameaça desapareceu, bem, se não do dia para a noite, quase do dia para a noite. Claro, a Guerra do Golfo garantiu às forças armadas dos EUA e OTAN uma última, mas grande “festa de despedida” (contra um inimigo absolutamente sem chance de se impor), mas logo depois se tornou bem claro para os estrategistas dos EUA que a “guerra pesada” estava acabada e que brigadas blindadas podem já não ser a mais útil ferramenta de guerra no arsenal dos EUA.

Foi quando os estrategistas dos EUA, principalmente os das Forças de Operações Especiais, desenvolveram o que costumo chamar de “guerras a preço de ocasião”. Funciona mais ou menos do seguinte modo: primeiro, acerte com a CIA o financiamento, arme de dê treinamento a alguns insurgentes locais (se preciso, traga pessoal do exterior); em seguida infiltre Forças Especiais dos EUA e misture-os àqueles insurgentes locais e com FACs [Forward Air Controllers, "controladores avançados pelo ar"] (soldados especialmente treinados para dirigir o apoio aéreo, aeronaves e helicópteros, para atacar forças inimigas que estejam em contato com forças dos EUA e “amigos”); por fim, aloque na em torno da zona de combate (porta-aviões, em países vizinhos ou até aeronaves locais confiscadas) para apoiar dia e noite as operações de combate. A noção chave é simples: garantir aos insurgentes amigos vantagem muito ampla no poder de fogo.

Todos vocês viram no YouTube: forças dos EUA e da “coalizão” avançam até entrar em área de fogo e, a menos que se imponham rapidamente, chamam um ataque aéreo que resulta num enorme BOOM!!! seguido por confraternização entre norte-americanos e amigos, e desaparecimento total dos atacantes. Repita a mesma receita várias vezes, e você consegue vitória fácil e rápida sobre inimigo completamente desarmado. Essa abordagem básica pode ser aprimorada com vários “suplementos” como fornecer melhor equipamento aos insurgentes (armas antitanque, equipamento para visão noturna, comunicações, etc.) e trazer para o local algumas forças dos EUA ou aliadas, inclusive mercenários, para dar conta dos alvos realmente fortes.

Embora muitos nas forças armadas dos EUA permanecessem profundamente céticos quanto a essa nova abordagem, o domínio dos tipos das Forças Especiais e o sucesso, pelo menos temporário, dessa “guerra a preço de ocasião” no Afeganistão tornaram a abordagem imensamente popular entre políticos e propagandistas norte-americanos. Melhor de tudo, esse tipo de guerra resultou em número muito reduzido de mortos norte-americanos e até lhes garantiu alto grau de “negabilidade plausível” no caso de algo sair errado. Claro, os espiões das agências de três letras também adoraram o novo tipo de guerra.

Mas bem poucos deram-se conta, no primeiro surto de euforia sobre a invencibilidade dos EUA, de que essa “guerra a preço de ocasião” assumia três pressupostos muito arriscados:

– Em primeiro lugar e sobretudo, toda aquela “invencibilidade” dependia completamente de haver inimigo profundamente desmoralizado que sente que, como na série Star Trek, seria fútil tentar resistir contra Borg (codinome, EUA), porque, ainda que as reais forças dos EUA alocadas para cada caso fossem limitadas em tamanho e capacidades, os EUA sem dúvida sempre enviariam mais e mais forças se necessário, até o total esmagamento da oposição.

– Em segundo lugar, esse tipo de guerra pressupõe que os EUA poderiam assegurar completa superioridade aérea sobre todo o campo de batalha. Os norte-americanos não gostam de prover apoio aéreo nos casos em que aeronaves e pilotos possam ser derrubados por força aérea ou mísseis inimigos.

– Em terceiro lugar, esse tipo de guerra exige que haja insurgentes locais que possam ser usados como “coturnos em solo” para realmente ocupar e controlar territórios.

Veremos adiante que esses três pressupostos não são necessariamente confiáveis, porque nem sempre estão presentes ou, para dizer mais claramente, porque os anglo-sionistas estão em falta de países nos quais ainda se verifiquem os três pressupostos. Analisemos vários casos, um a um.

Hezbollah, Líbano 2006

OK, essa guerra não envolve oficialmente os EUA, é verdade, mas, sim, envolve Israel, o que é mais ou menos o mesmo, pelo menos para as nossas finalidades. Embora seja verdade que as táticas superiores do Hezbollah e a melhor preparação, também pelo Hezbollah, do campo de combate, e embora seja inegável que as armas russas antitanques deram ao Hezbollah a capacidade de atacar e destruir até os tanques israelenses mais avançados, tudo isso considerado, o desenvolvimento mais importante dessa guerra foi que, pela primeira vez no Oriente Médio, uma força árabe comparativamente fraco não mostrou qualquer temor ao enfrentar o suposto “invencível Tshahal”. O jornalista britânico Robert Fisk foi o primeiro a detectar essa imensa mudança e suas tremendas implicações:

"Todos ouviram Sharon, antes de sofrer seu derrame massivo, Sharon usou essa frase no Knesset, você sabe: “Os palestinos têm de sentir dor”. Isso, durante uma das intifadas. A ideia é que se você continua a bater e bater e bater nos árabes eles se submeterão, eventualmente cairão de joelhos e darão a vocês o que você quiser. E nada pode ser mais autoenganador, porque já nem se aplica hoje. De modo geral aplicava-se há 30 anos, quando pela primeira vez cheguei ao Oriente Médio. Se os israelenses cruzavam a fronteira libanesa, os palestinos pulavam nos próprios carros e iam para Beirute, para ir ao cinema. Hoje, se os israelenses cruzarem a fronteira do Líbano, o Hezbollah pula nos próprios carros em Beirute e corre direto para o sul, para se unir à luta dos palestinos. Mas a coisa chave hoje é que os árabes já não têm medo. Alguns líderes têm medo, os Mubaraks do mundo, o presidente do Egito, o rei Abdullah II da Jordânia. Esses sim têm medo. Gaguejam e tremem nas suas mesquitas de ouro, porque foram apoiados por nós [o ocidente]. Mas o povo já não tem medo."

É diferença descomunal, e o que o Hezbollah (Partido de Deus) obteve, aquela “Vitória Divina”, em 2006, é hoje repetida na Síria, no Afeganistão, no Iêmen, Iraque e por toda parte. O medo da “única superpotência” é afinal passado. Foi substituído por um desejo ardente de cobrar as contas de uma lista infinita de agressões pelos anglo-sionistas e suas forças de ocupação.

O Hezbollah também comprovou outra coisa muito importante: a estratégia vitoriosa quando frente a inimigo mais forte não é tentar proteger-se contra os ataques daquele inimigo, mas negar-lhe qualquer alvo lucrativo. Dito em termos simples: melhor uma tenda de campanha, que um bunker. Ou, noutra versão, “se eles podem ver você, podem matar você”. A versão mais acadêmica pode ter o seguinte formato: “não conteste a superioridade do inimigo ― torne-a irrelevante”.

Olhando em retrospectiva é bem óbvio que uma das armas mais formidáveis do arsenal anglo-sionista não era a bomba atômica ou o porta-aviões, mas uma máquina de propaganda que durante décadas, com muito sucesso, convenceu milhões de pessoas em todo o planeta de que os EUA seriam invencíveis: os EUA tinham as melhores armas, os soldados mais bem treinados, as táticas mais avançadas, etc. E afinal se vê que é absoluto nonsense ― os militares norte-americanos no mundo real nada têm de parecido com essa contraimagem criada pela propaganda. Quando nos últimos tempos os EUA realmente venceram alguma guerra contra inimigo capaz de construir resistência capaz? No Pacífico, na 2ª-guerra mundial?

[Nota: Escolho o exemplo do Hezbollah em 2006 não para ilustrar o colapso do paradigma “consagrado à rendição” [ing. “sacred into surrender”], mas para ilustrar o paradigma do “não conteste a superioridade do inimigo – torne-a irrelevante”, do qual o mais antigo e melhor exemplo pode ser o Kosovo em 1998-1999, quando uma imensa operação que envolveu todas as forças aéreas da OTAN durou 78 dias (a agressão de Israel contra o Líbano durou apenas 33 dias) e deu em exatamente nada. Uns poucos veículos anfíbios destruídos, uns poucos aviões velhos destruídos em solo, e um Corpo do Exército Sérvio que nada sofreu e que Milosevic ordenou que se retirasse por razões pessoais e políticas. Os sérvios foram os primeiros a demonstrar que essa ação de “negar alvo ao inimigo” é viável mesmo contra adversário que tenha capacidades avançadas de inteligência e reconhecimento].

Força-tarefa dos russos, Síria 2015

Como sempre disse e insisti, a operação russa na Síria não foi caso de “os russos estão chegando” ou “a guerra acabou”. A realidade é que os russos mandaram para lá uma força muito pequena e que essa força menos derrotou o Daech e, muito mais, mudou o traço fundamental do contexto político da guerra. Dito em termos mais simples ― o fato de a Rússia ter-se envolvido não apenas tornou muito mais difícil qualquer intervenção dos EUA: os russos também negaram aos norte-americanos a capacidade para usar contra a Sírio o seu modelão favorito de “guerra a preço de ocasião”.

Quando os russos pela primeira vez levaram para a Síria a sua força tarefa, não levaram nenhum tipo de capacidade que negasse aos norte-americanos o uso do espaço aéreo sírio. Mesmo depois de os turcos derrubarem o SU-24 russo, Moscou só alocou jatos de combate e defesas de capacidade superior para se autoproteger de ataque semelhante, dos turcos. Mesmo agora, enquanto escrevo, se a Força Aérea dos EUA ou a Marinha dos EUA decidir assumir total controle do espaço aéreo sírio, sem dúvida poderia fazê-lo simplesmente porque em termos puramente numéricos os russos ainda não têm suficientes defesas aéreas ou, ainda menos, aviação de combate, para negar o espaço aéreo sírio aos norte-americanos.

Ah, sim, a verdade é que ataque desse tipo, dos EUA, custaria preço muito alto para os norte-americanos, seja militarmente seja politicamente. Mas ninguém realmente crê que o minúsculo contingente aéreo russo, de 33 aeronaves de combate (das quais só 19 podem realmente contestar o acesso ao espaço sírio: quatro SU-30, seis SU-34, nove Su-27) e um número desconhecido de baterias Pantsir S-300/S-400/S-1 podem realmente derrotar o poder aéreo combinado do Comando Central dos EUA e da OTAN. Isso seria delírio no mais alto grau, ou simples sinal de que não há compreensão efetiva da guerra moderna.

O problema para os norte-americanos é formado por uma matriz de riscos dentre os quais, é claro, incluem-se as capacidades militares dos russos, mas também inclui os riscos políticos de estabelecer uma zona aérea de exclusão sobre a Síria. Não só esse tipo de movimento levaria a uma grande escalada na intervenção norte-americana já totalmente ilegal nessa guerra, mas também exigiria esforço sustentado para suprimir as defesas aéreas sírias (e potencialmente também as russas). Mas é algo que a Casa Branca não está querendo fazer agora, especialmente quando ainda não se pode antever o que esse tipo de operação tão arriscada poderia alcançar. Como resultado, os norte-americanos atacam aqui ou ali, como os israelenses, mas na verdade todos esses esforços são praticamente inúteis.

Ainda pior é o fato de que os russos agora estão virando a mesa contra os norte-americanos e entregando FACs [Forward Air Controllers, "controladores avançados pelo ar"] e apoio aéreo próximo às forças sírias, especialmente em áreas chaves. Os russos também alocaram controladores de artilharia e sistemas de artilharia pesada, incluindo lançadores múltiplos de foguetes e lança-chamas pesados, que, todo esse equipamento, dá vantagem, em poder de fogo, às forças do governo. Paradoxalmente, agora são os russos que lutam uma “guerra a preço de ocasião” ― ao mesmo tempo em que negam essa possibilidade aos norte-americanos e aliados.

Terroristas do bem, codinome “Exército Sírio Livre”: Síria 2017

A principal fraqueza do Exército Sírio Livre, ESL, é que não existe na verdade, pelo menos não em campo. Ah, sim, há incontáveis exilados sírios do Exército Sírio Livre na Turquia e em outros pontos, e há também muitos tipos Daech/al-Qaeda que muito se esforçam para parecer que são o ESL aos olhos de gente como John McCain, e há uns poucos grupos armados disseminados aqui e ali na própria Síria, que muito quereriam ser “O Exército Sírio Livre”. Mas na realidade, o ESL sempre foi uma abstração, um conceito puramente político.

Esse ESL virtual pode garantir várias coisas úteis aos norte-americanos: uma narrativa para a máquina de propaganda; pretexto ‘santificado’ para lhes enviar a CIA; uma mínima folha de parreira para esconder as vergonhas do Tio Sam na cama com al-Qaeda e Daesh; e um ideal político para tentar unificar o mundo contra Assad e o governo sírio. Mas o que esse ESL jamais pôde fornecer foram “coturnos em solo”.

Todo mundo lá tinhas seus próprios coturnos em solo: Daesh e al-Qaeda sem dúvida, mas também os sírios, os iranianos e o Hezbollah e, claro, os turcos e os curdos. Mas, dado que os takfiris [aqueles que são acusados por outros muçulmanos como "apóstatas"; no caso sírio Al-Qaeda e outros] eram oficialmente inimigos dos EUA, os norte-americanos ficavam limitados no objetivo e na natureza do apoio que sempre desejaram dar e deram àqueles wahabistas malucos. Os sírios, os iranianos e o Hezbollah foram demonizados e, assim, tornou-se impossível trabalhar com eles. Restaram os turcos, que tinham relações horríveis com os EUA, sobretudo depois que os EUA apoiaram a tentativa de golpe contra Erdogan; e os curdos, que não davam sinais de muita disposição para lutar e morrer no fundo do Iraque, e cujos documentos eram observados por Ancara com alta dose de hostilidade. Com o avançar da guerra, afinal a dura realidade desabou sobre os norte-americanos: absolutamente não tinham “coturnos em solo” aos quais apoiar ou incorporar seus agentes de forças especiais.

A melhor ilustração dessa realidade é o mais recente debacle dos EUA na região de al-Tanf próxima da fronteira jordaniana. Os norte-americanos apoiados pelos jordanianos, invadiram silenciosamente aquela parte não habitada do deserto sírio, na esperança de cortar as linhas de comunicação entre sírios e iraquianos. Mas em vez disso foram os sírios que cortaram e descartaram os norte-americanos e chegaram antes à fronteira, o que tornou a presença dos EUA simplesmente inútil. Parece que os norte-americanos agora desistiram, no mínimo temporariamente, de al-Tanf, e as forças dos EUA serão retiradas e realocadas em algum outro ponto na Síria.

Quem será o próximo a ser atacado? Venezuela?

Rápida olhada para trás na história mostra que os norte-americanos sempre tiveram problemas com seus ‘aliados’ (i.e., fantoches) locais. Uns até que prestavam (Coreia do Sul), outros não (Contras), mas feitas as contas, cada vez que os EUA se servem de forças locais, eles se expõem a um risco inerente: os locais frequentemente têm agenda própria, algumas vezes muito diferente. E rapidamente se dão contra de que, se dependem dos EUA, os EUA também dependem deles.

Acrescente-se a isso o fato bem conhecido de que os norte-americanos não são famosos exatamente por sua, digamos assim, “sensibilidade e expertise multicultural” (basta ver quantos norte-americanos falam o idioma local dos ‘aliados’ que eles ‘salvam’!). Assim se vê por que a inteligência dos EUA quase sempre só se dá conta desse problema quando já é muito, muito tarde para tentar qualquer conserto (e não importa quanta inteligência humana bem construída eles troquem por tecnologias toscas). A realidade é que os norte-americanos não têm, via de regra, qualquer noção aproveitável sobre o ambiente no qual operam. O fracasso dos EUA na Síria (ou na Líbia ou na Ucrânia, dentre outros fracassos) é excelente ilustração disso.

Agora que já identificamos algumas das fragilidades doutrinais e operacionais da abordagem “guerra a preço de ocasião” dos EUA, podemos usá-las para avaliar uma série de possíveis países alvos:


Nota: “Inimigo desmoralizado” e “superioridade aérea” são palpites meus, mais do que estimativa, posso estar errado; “coturnos em solo” faz referência a uma força indígena e com capacidades de combate já dentro do país (não a força estrangeira de intervenção) capaz de tomar e conservar a posse de território, não simples pequeno grupo insurgente ou alguma oposição política.

Se minhas estimativas estão corretas, nesse caso o único país candidato a sofrer intervenção norte-americana seria a Venezuela.

Mas falta aqui o fator tempo: para que uma intervenção norte-americana seja bem-sucedida, exigiria uma estratégia realista de saída (os EUA já estão superdistendidos, e a última coisa de que o Império carece seria enredar-se em mais uma guerra invencível à moda Afeganistão). Além disso, embora tenha dado um “sim” tateante à oposição venezuelana, no quesito “capacidade para pôr coturnos em solo” (especialmente se receber apoio da Colômbia), não tenho muita certeza de que as forças pró-EUA na Venezuela estejam sequer perto de ter as capacidades de forças armadas regulares (as quais, suponho, se oporiam à invasão pelos EUA).

Além disso, há a questão do terreno. Embora num cenário otimista possa ser fácil tomar Caracas, seria difícil e perigoso tentar operar no restante do país.

Por fim, há a questão de se manter como poder: os norte-americanos gostam de vitórias rápidas; mas guerrilheiros latino-americanos já provaram muitas vezes que podem combater ao longo de décadas. Por todas essas razões, por mais que me pareça que os EUA são capazes de intervir na Venezuela e desgraçar o país até que fique irreconhecível, não acho que os EUA sejam capazes de impor ali, no poder, um novo regime, e de garantir que o novo regime controle o país.

Conclusão: Afeganistão 2001-2017

Afeganistão é frequentemente chamado de “cemitério de Impérios”. Não tenho lá muita certeza de que o Afeganistão algum dia venha a ser o cemitério do Império Anglo-sionista, mas, sim, acho que o Afeganistão será o cemitério da doutrina da “guerra a preço de ocasião”, o que é paradoxal, porque o Afeganistão foi onde essa doutrina foi aplicada pela primeira vez com sucesso que, inicialmente, pareceu enorme.

Todos nos lembramos das Forças Especiais dos EUA, frequentemente a cavalo, coordenando os ataques dos B-52 contra forças do governo afegão em rápida retirada. 16 anos depois, a guerra do Afeganistão mudou dramaticamente, e as forças dos EUA constantemente combatem uma guerra na qual 90% das baixas são causadas por Dispositivos Explosivos Improvisados [ing. IEDs], onde todos os esforços para algum tipo de acordo político fracassaram miseravelmente e onde tanto a vitória quanto a retirada parecem igualmente impossíveis. O fato de agora a máquina de propaganda dos EUA ter acusado a Rússia de estar “armando os Talibã” é poderosa ilustração de o quanto os anglo-sionistas estão desesperados. Eventualmente, claro, os norte-americanos terão de sair, totalmente derrotados, mas por enquanto o máximo que já admitem é que “não estão vencendo” (sério!?).

O dilema dos EUA é simples: a Guerra Fria acabou há muito tempo, e estamos já no Pós-Guerra Fria, e já faz tempo que as forças armadas dos EUA precisam passar por completa reforma, embora essa reforma já seja também politicamente impossível. Nesse momento, as forças armadas dos EUA são o resultado bizarro dos anos de Guerra Fria, de “guerra a preço de ocasião” e de intervenções militares fracassadas.

Em teoria, os EUA devem começar por decidir-se por uma nova estratégia nacional de segurança; depois, desenvolver uma estratégia militar que apoie sua estratégia nacional de segurança, seguida do desenvolvimento de uma doutrina militar a qual, ela própria produzirá então um plano de modernização da força que afetará todos os aspectos da reforma militar, do treinamento ao planejamento dos deslocamentos da força. Os russos demoraram mais de uma década para fazer isso, incluindo vários falsos inícios e erros, e os EUA precisarão no mínimo do mesmo tempo, se não de mais tempo. No momento, até a decisão de embarcar em reforma de tão longo alcance parece estar a anos de distância.  Por enquanto, a palavra de ordem parece ser propaganda ‘de salão’ (“somos os maiores, ninguém nos supera!”) com negação obsessiva.

Como também aconteceu na Rússia, terá de sobrevir algum embaraço catastrófico (como a primeira guerra russa na Chechênia), para forçar o establishment militar dos EIA a olhar cara a cara a realidade e realmente atuar sobre ela. Mas até que aconteça, a capacidade das forças dos EUA para impor seu domínio sobre outros países que não se rendam a ameaças e sanções só continuará a se degradar.

A Venezuela será o país da vez? Espero que não. De fato, acho que não será. Mas se for, será um inferno, muita coisa destruída e pouquíssimo obtido. Os anglo-sionistas vêm lutando acima de seu peso real há décadas, e o mundo já começa a perceber. Derrotar e impor-se contra Irã ou Coreia do Norte já está claramente fora das reais capacidades militares dos EUA. Quanto a atacar Rússia ou China ― seria suicídio. Com o quê, só resta a Ucrânia.

Suponho que os EUA possam enviar algumas armas para a junta em Kiev e organizar alguns campos de treinamento no oeste da Ucrânia. Mas nada além disso. E de qualquer modo nada aí fará qualquer real diferença (além de ofender ainda mais os russos, é claro).

A era das “guerras a preço de ocasião” já é passado e o mundo vai-se tornando lugar muito diferente do que foi. Os EUA terão de se adaptar à essa realidade, pelo menos se quiserem conservar algum grau de credibilidade, mas por enquanto não aparece ninguém em Washington DC ― exceto Ron Paul ― disposto a admiti-lo. Resultado disso, a era das grandes intervenções militares norte-americanas pode bem estar chegando ao fim, mesmo que sempre haja país do tamanho de Grenada ou do Panamá para ser “triunfalmente” destruído, sendo necessário.

Essa nova realidade, é claro, imediatamente levanta a questão de com o quê/como o EUA-dólar será bancado no futuro (até agora, só foi bancado, realmente, pelo poder militar dos EUA). Mas esse já é outro assunto.

sábado, 2 de dezembro de 2017

JOSUÉ DE CASTRO E A FOME EM 2017


Após uma queda contínua de mais de uma década, a fome voltou a crescer mundialmente, afetando 815 milhões de pessoas em 2016, ou 11% da população mundial, segundo nova publicação do relatório anual das Nações Unidas sobre segurança alimentar e nutrição mundial. Ao mesmo tempo, múltiplas formas de desnutrição ameaçam a saúde de milhões de pessoas em todo o mundo. O aumento - 38 milhões de pessoas a mais do que no ano anterior - é em grande parte devido à proliferação de conflitos armados, das mudanças climáticas e da crise econômica.

De acordo com o relatório, cerca de 155 milhões de crianças menores de cinco anos apresentam problemas de crescimento (muito pequenas para a sua idade) e peso muito abaixo do esperado. Por outro lado, estima-se que 41 milhões de crianças sofrem de obesidade. A anemia entre as mulheres e a obesidade adulta também é motivo de preocupação. Essas tendências são uma consequência não só das guerras e mudanças climáticas, mas também de alterações radicais no hábito alimentar das pessoas, bem como da desaceleração econômica dos últimos anos.

A fome atingiu algumas partes do Sul do Sudão por vários meses no início de 2017, e há um alto risco de que ela possa se repetir neste país, além de aparecer em outros locais afetados por conflitos bélicos, a saber, o nordeste da Nigéria, a Somália e o Iêmen.

Mas mesmo em regiões pacíficas, secas ou inundações ligadas em parte ao fenômeno climático do El Niño, bem como a desaceleração econômica global, também viram a segurança alimentar e a nutrição se deteriorarem.

O relatório é a primeira avaliação global da ONU sobre segurança alimentar e nutrição a ser lançada após a adoção da Agenda para o Desenvolvimento Sustentável de 2030, que visa acabar com a fome e todas as formas de desnutrição até 2030, como uma prioridade política internacional.

"Na última década, os conflitos armados aumentaram dramaticamente em número e se tornaram de natureza mais complexa e de difícil solução", anuncia o prefácio do relatório das entidades envolvidas, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), o Reino Unido Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), o Programa Mundial de Alimentos (PAM) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Destaca-se que a maior parte das crianças com insegurança alimentar e desnutridas no mundo estão concentradas em zonas de guerra.

Isso provocou um sinal vermelho que não pode ser ignorado. Pois, a fome e todas as formas de desnutrição não serão erradicadas até 2030, a menos que se enfrentem todos os fatores que prejudicam a segurança alimentar e a nutrição no mundo. Garantir a paz e a inclusão social é uma condição necessária para alcançar tal objetivo.

Fome e segurança alimentar: números oficiais

• Número global de pessoas famintas no mundo: 815 milhões, incluindo:
- Na Ásia: 520 milhões
- Na África: 243 milhões
- Na América Latina e no Caribe: 42 milhões
•  População global com fome em termos proporcionais no mundo: 11%
- Ásia: 11,7%
- África: 20% (no leste da África, 33,9%)
- América Latina e Caribe: 6,6%
Desnutrição em todas as suas formas
• Número de crianças com menos de 5 anos de idade que sofrem de crescimento atrofiado (altura baixa demais para a idade): 155 milhões
Número de pessoas que vivem em países afetados por diferentes níveis de conflito: 122 milhões
• Crianças com menos de 5 anos afetadas pelo desperdício (peso muito baixo devido a altura): 52 milhões
• Número de adultos obesos: 641 milhões (13% de todos os adultos no planeta)
• Crianças com menos de 5 anos com excesso de peso: 41 milhões
• Número de mulheres em idade reprodutiva afetadas pela anemia: 613 milhões (cerca de 33% do total)
O impacto do conflito
• 815 milhões de pessoas com fome no planeta vivem em países afetados por conflitos: 489 milhões
• A prevalência de fome nos países afetados por conflitos é 1,4 - 4,4 pontos percentuais maior que em outros países
• As pessoas que vivem em países afetados por crises prolongadas são quase 2,5 vezes mais propensas a serem subnutridas do que as pessoas em outros lugares.

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JOSUÉ DE CASTRO


1. O assunto deste livro é bastante delicado e perigoso. A tal ponto delicado e perigoso que se constituiu num dos tabus de nossa civilização. É realmente estranho, chocante, o fato de que, num mundo como o nosso, caracterizado por tão excessiva capacidade de escrever-se e de publicar-se, haja até hoje tão pouca coisa escrita acerca do fenômeno da fome, em suas diferentes manifestações. Consultando a bibliografia mundial sobre o assunto, verifica-se a sua extrema exiguidade. Extrema quando a pomos em contraste com a minuciosa abundância de trabalhos sobre temas outros de muito menor significação. Tal pobreza bibliográfica se apresenta ainda mais estranha e mais chocante quando meditamos acerca do conteúdo do tema da fome — de sua transcendental importância e de sua categórica finalidade orgânica.

Já outros estudiosos se tinham espantado diante deste inexplicável vazio bibliográfico: não há muito, Gregorio Marañon, recolhendo material para a elaboração de um trabalho sobre a regulação hormonal da fome [1], se surpreendeu com o número insignificante de fichas que conseguiu reunir acerca deste problema fundamental. Registrando o fato, o escritor espanhol, interessado no momento noutra ordem de ideias, não se deu ao trabalho de buscar as razões ocultas que determinaram esta quase que abstenção de nossa cultura em abordar o tema da fome. Em examiná-lo mais a fundo, não só em seu aspecto estrito de sensação — impulso e instinto que tem servido de força motriz a evolução da humanidade (Espinosa) — como em seu aspecto mais amplo da calamidade universal. Sob este último aspecto, se fizermos um estudo comparativo da fome com as outras grandes calamidades que costumam assolar o mundo — a guerra e as pestes ou epidemias — verificaremos, mais uma vez, que a menos debatida, a menos conhecida em suas causas e efeitos, é exatamente a fome. Para cada mil publicações referentes aos problemas da guerra, pode-se contar com um trabalho acerca da fome. No entanto, os estragos produzidos por esta última calamidade são maiores do que os das guerras e das epidemias juntas, conforme é possível apurar, mesmo contando com as poucas referências existentes sobre o assunto [2]. 

E há mais, a favor deste triste primado da fome sobre as outras calamidades, o fato universalmente comprovado de que ela constitui a causa mais constante e efetiva das guerras e a fase preparatória do terreno, quase que obrigatória, para a eclosão das grandes epidemias. Quais são os fatores ocultos desta verdadeira conspiração de silêncio em torno da fome? Será por simples obra do acaso que o tema não tem atraído devidamente o interesse dos espíritos especulativos e criadores dos nossos tempos? Não cremos. O fenômeno é tão marcante e se apresenta com tal regularidade que, longe de traduzir obra do acaso, parece condicionado às mesmas leis gerais que regulam as outras manifestações sociais de nossa cultura. Trata-se de um silêncio premeditado pela própria alma da cultura: foram os interesses e os preconceitos de ordem moral e de ordem política e econômica de nossa chamada civilização ocidental que tornaram a fome um tema proibido, ou pelo menos pouco aconselhável de ser abordado publicamente. O fundamento moral que deu origem a esta espécie de interdição baseia-se no fato de que o fenômeno da fome, tanto a fome de alimentos como a fome sexual, é um instinto primário e por isso um tanto chocante pura uma cultura racionalista como a nossa, que procura por todos os meios impor o predomínio da razão sobre o dos instintos na conduta humana. Considerando o instinto como o animal e só a razão como o social, a nossa civilização, em sua fase decadente, vem procurando negar sistematicamente o poder criador dos instintos, tidos como forças desprezíveis. Aí encontramos uma das imposições da alma coletiva da cultura, que fez do sexo e da fome assuntos tabus — impuros e escabrosos — e por isto indignos de serem tocados. Sobre o problema do sexo, foi mantido um silêncio opressor, até o dia em que um homem de gênio, num gesto inconveniente e providencial, afirmou, diante do fingido espanto da ciência e da moral oficiais, que o instinto sexual é uma força invencível, tão intensa que atinge a consciência e a domina inteiramente. Freud demonstrou com tal genialidade o primado do instinto, que é essencial, sobre o racional, que é acessório, no desempenho do comportamento humano, que não houve remédio senão aceitar-se, mesmo a contragosto, a sua teoria e deixar-se abrir os diques com que se procurava ingenuamente afogar as raízes da própria vida. Desde então foi possível debater-se em altas vozes o problema do sexo.

Quanto à fome, foram necessárias duas terríveis guerras mundiais e uma tremenda revolução social — a revolução russa — nas quais pereceram dezessete milhões de criaturas, dos quais doze milhões de fome, para que a civilização ocidental acordasse do seu cômodo sonho e se apercebesse de que a fome é uma realidade demasiado gritante e extensa, para ser tapada com uma peneira aos olhos do mundo.

Ao lado dos preconceitos morais, os interesses econômicos das minorias dominantes também trabalhavam para escamotear o fenômeno da fome do panorama espiritual moderno. É que ao imperialismo econômico e ao comércio internacional a serviço do mesmo interessava que a produção, a distribuição e o consumo dos produtos alimentares continuassem a se processar indefinidamente como fenômenos exclusivamente econômicos — dirigidos e estimulados dentro dos seus interesses econômicos — e não como fatos intimamente ligados aos interesses da saúde pública. E a dura verdade é que as mais das vezes esses interesses eram antagônicos.
Veja-se o caso da Índia, por exemplo. Segundo nos conta Réclus [3], nos últimos trinta anos do século passado morreram de inanição naquele país mais de vinte milhões de habitantes; só no ano de 1877 pereceram de fome cerca de quatro milhões.

E, no entanto, de acordo com a sugestiva observação de Richard Temple — “enquanto tantos infelizes morriam de fome, o porto de Calcutá continuava a exportar para o estrangeiro quantidades consideráveis de cereais. Os famintos eram demasiado pobres para comprar o trigo que lhes salvaria a vida”. É lógico que os grandes importadores, negociantes de Londres, Rotterdam e outras grandes praças europeias, que tiravam grandes proventos de suas importações da Índia, faziam o possível para abafar na Europa os rumores longínquos desta fome longínqua, a qual, se tomada na devida consideração, poderia atrapalhar os seus lucrativos negócios.

Também os governos nazistas que se haviam apoderado do poder em vários países e de cuja política fazia parte obrigatória a propaganda intempestiva de prosperidades inexistentes, não podiam ver com bons olhos quaisquer tentativas que viessem mostrar, às claras, aos outros países, em que extensão a fome participava dos destinos de seus povos. A própria ciência e a técnica ocidentais, envaidecidas por suas brilhantes conquistas materiais, no domínio das forças da natureza, se sentiram humilhadas, confessando abertamente o seu quase absoluto fracasso em melhorar as condições de vida humana no nosso planeta, e com o seu reticente silêncio sobre o assunto faziam-se, consciente ou inconscientemente, cúmplices dos interesses políticos que procuravam ocultar a verdadeira situação de enormes massas humanas envolvidas em caráter permanente no círculo de ferro da fome.

2. Hoje, tendo sido possível realizar com a aquiescência oficial4 uma série de pesquisas bem orientadas nas mais diferentes regiões da terra acerca das condições de nutrição dos povos, e tendo-se evidenciado, dentro de um critério rigorosamente científico, o fato de que cerca de dois terços da humanidade vivem num estado permanente de fome, começa a mudar a atitude do mundo. É claro que para essa mudança de atitude muito tem contribuído a pressão de fatos inexoráveis. Há a consciência universal de que atravessamos uma hora decisiva, na qual só reconhecendo os grandes erros de nossa civilização podemos reencontrar o caminho certo e fazê-la sobreviver à catástrofe. Desses erros, um dos mais graves é, sem nenhuma dúvida, este de termos deixado centenas de milhões de indivíduos morrendo à fome num mundo com capacidade quase infinita de aumento de sua produção e que dispõe de recursos técnicos adequados à realização desse aumento.

Mundo capaz de produzir alimentos para cinco e meio bilhões de homens, segundo os cálculos de East, oito bilhões, segundo os de Penk, e onze bilhões, segundo os de Kucszinski; portanto, pelo menos para o dobro da população atual [5]. A demonstração mais efetiva da mudança radical da atitude universal, em face do problema, encontra-se na realização da Conferência de Alimentação de Hot Springs, a primeira das conferências convocadas peias Nações Unidas para tratar de problemas fundamentais à reconstrução do mundo de após-guerra. Nesta conferência reunida em 1943, e que deu origem à atual Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas — a FAO — quarenta e quatro nações, através dos depoimentos de eminentes técnicos no assunto, confessaram, sem constrangimento, quais as condições reais de alimentação dos seus respectivos povos e planejaram as medidas conjuntas a serem levadas a efeito para que sejam apagadas ou pelo menos clareadas, nos mapas mundiais de demografia qualitativa, estas manchas negras que representam núcleos de populações subnutridas e famintas, populações que exteriorizam, em suas características de inferioridade antropológica, em seus alarmantes índices de mortalidade e em seus quadros nosológicos de carências alimentares — beribéri, pelagra, escorbuto, xeroftalmia, raquitismo, osteomalácia, bócios endêmicos, anemias, etc. — a penúria orgânica, a fome global ou específica de um, de vários e, às vezes, de todos os elementos indispensáveis à nutrição humana.

Para que as medidas projetadas possam atingir o seu objetivo, faz-se necessário, no entanto, intensificar e ampliar, cada vez mais, os estudos sobre a alimentação no mundo inteiro; donde a obrigação, em que se encontram os estudiosos deste problema, de apresentarem os resultados de suas observações pessoais, como contribuições parciais pura o levantamento do plano universal de combate à fome, de extermínio ã mais aviltante das calamidades, uma vez que a fome traduz sempre um sentimento de culpa, uma prova evidente de que as organizações sociais vigentes se encontram incapazes de satisfazer a mais fundamental das necessidades humanas — a necessidade de alimentos.

Um dos grandes obstáculos ao planejamento de soluções adequadas ao problema da alimentação dos povos reside exatamente no pouco conhecimento que se tem do problema em conjunto, como um complexo de manifestações simultaneamente biológicas, econômicas e sociais. A maior parte dos estudos científicos sobre o assunto se limita a um dos seus aspectos parciais, projetando uma visão unilateral do problema. São quase sempre trabalhos de fisiólogos, de químicos ou de economistas, especialistas em geral limitados por contingência profissional ao quadro de suas especializações.

Foi diante desta situação que resolvemos encarar o problema sob uma nova perspectiva, de um plano mais distante, donde se possa obter uma visão panorâmica de conjunto, visão em que alguns pequenos detalhes certamente se apagarão, mas na qual se destacarão de maneira compreensiva as ligações, as influências e as conexões dos múltiplos fatores que interferem nas manifestações do fenômeno. Para tal fim pretendemos lançar mão do método geográfico, no estudo do fenômeno da fome. Único método que, a nossa ver, permite estudar o problema em sua realidade total, sem arrebentar-lhe as raízes que o ligam subterraneamente a inúmeras outras manifestações econômicas e sociais da vida dos povos. Não o método descritivo dá antiga geografia, mas o método interpretativo da moderna ciência geográfica, que se corporificou dentro dos pensamentos fecundos de Ritter, Humboldt, Jean Brunhes, Vidal de La Blanche, Criffith Taylor e tantos outros.

Não queremos dizer com isto que o nosso trabalho seja estritamente uma monografia geográfica da fome, em seu sentido mais restrito, deixando à margem os aspectos biológicos, médicos e higiênicos do problema: mas, que, encarando esses diferentes aspectos, sempre o faremos orientados pelos princípios fundamentais da ciência geográfica, cujo objetivo básico é localizar com precisão, delimitar e correlacionar os fenômenos naturais e culturais que ocorrem à superfície a terra. É dentro desses princípios geográficos, da localização, da extensão, da causalidade, da correlação e da unidade terrestre, que pretendemos encarar o fenômeno da fome. Por outras palavras, procuraremos realizar uma sondagem de natureza ecológica, dentro deste conceito tão fecundo de “Ecologia”, ou seja, do estudo das ações e reações dos seres vivos diante das influências do meio. Nenhum fenômeno se presta mais para ponto de referência no estudo ecológico destas correlações entre os grupos humanos e os quadros regionais que eles ocupam, do que o fenômeno da alimentação — o estudo dos recursos naturais que o meio fornece para subsistência das populações locais e o estudo dos processos através dos quais essas populações se organizam para satisfazer as suas necessidades fundamentais em alimentos. Já Vidal de La Blanche havia afirmado há muito tempo que “entre as forças que ligam o homem a um determinado meio, uma das mais tenazes é a que transparece quando se realiza o estudo dos recursos alimentares regionais” [6].

Neste ensaio de natureza ecológica tentaremos, pois, analisar os hábitos alimentares dos diferentes grupos humanos ligados a determinadas áreas geográficas, procurando, de um lado, descobrir as causas naturais e as causas sociais que condicionaram o seu tipo de alimentação, com suas falhas e defeitos característicos, e, de outro lado, procurando verificar até onde esses defeitos influenciam a estrutura econômico-social dos diferentes grupos estudados. Assim fazendo, acreditamos poder trazer alguma luz explicativa a inúmeros fenômenos de natureza social até hoje mal compreendidos por não terem sido levados na devida conta os seus fundamentos biológicos.

Não se deduza daí que, num exagero descabido de especialista obcecado pela importância de seus problemas, iremos tentar a criação de qualquer nova teoria alimentar das civilizações, num novo broto desta escola bissocial de inesgotável fecundidade. Estamos longe desta maneira de ver, de tentativas como a do famoso escritor e jornalista mexicano Francisco Bulnes, que, no fim do século passado, um tanto influenciado pelas ideias das hierarquias sociais, procurou explicar todas as diferenças entre os grupos culturais por seus tipos de alimentação: “A humanidade, de acordo com uma severa classificação econômica, deve ser dividida em três grandes raças — a raça do trigo, a raça do milho, e a raça do arroz. Qual delas é indiscutivelmente superior?” Com esta pergunta iniciava Bulnes o desenvolvimento do seu raciocínio para demonstrar que só a raça do trigo é capaz de atingir as etapas da alta civilização. No seu livro extraordinariamente interessante, se anotarmos a época do seu aparecimento no século passado — El Porvenir de lãs Naciones Hispano-Americanas ante las Conquistas de Europa y Estados Unidos (1889) — Bulnes revela-se um paciente investigador e inteligente renovador do panorama mental americano, mas também um apaixonado de suas próprias ideias, capaz de forçar os argumentos para demonstrar a mais absurda das teses. No nosso ensaio não pretendemos provar nada de parecido. Não queremos convencer ninguém de que a fome seja a mola única da evolução social, nem que sejam os alimentos a única matéria-prima para fabricação das tintas com que são coloridos os diferentes quadros culturais do mundo, mas tão somente destacar desses quadros os traços negros da fome e da miséria que tarjam quase todos eles com um friso mais ou menos acentuado.

3. Acreditamos que já é tempo de precisar bem o nosso conceito demasiado extenso e, portanto, suscetível de grandes confusões. Não constitui objeto deste ensaio o estudo da fome individual, seja em seu mecanismo fisiológico, já hoje bem conhecido graças aos magistrais trabalhos de Schiff, Lucciani, Turró, Cannon e outros fisiólogos; seja em seu aspecto subjetivo de sensação interna, aspecto este que tem servido de material psicológico para as magníficas criações dos chamados romancistas da fome. Escritores corajosos que resolveram violar o tabu e nos legaram páginas geniais e heroicas, como as de um Knut Hamsun, no seu romance Fome — verdadeiro relatório minucioso e exato das diferentes, contraditórias e confusas sensações que a fome produziu no espírito do autor; como as de um Panait Istrati, vagando esfomeado nas luminosas planícies da Romênia; como as de um Felekhov e um Alexandre Neverov, narrando com dramática intensidade a fome negra da Rússia em convulsão social; como as de um George Fink, sofrendo fome nos subúrbios cinzentos e sórdidos de Berlim; e como as de um John Steinbeck, contando, em Vinhas da Ira, a epopeia de fome da “família Joad”, através das mais ricas regiões do país mais rico do mundo — os Estados Unidos da América.

Não é esse tipo excepcional de fome, simples traço melodramático no emaranhado desenho da fome universal, que interessa ao nosso estudo [7].

O nosso objetivo é analisar o fenômeno da fome coletiva — da fome atingindo endêmica ou epidemicamente as grandes massas humanas. Não só a fome total, a verdadeira inanição que os povos de língua inglesa chamam de starvation, fenômeno, em geral, limitado a áreas de extrema miséria e a contingências excepcionais, como o fenômeno muito mais frequente e mais grave, em suas consequências numéricas, da fome parcial, da chamada fome oculta, na qual, pela falta permanente de determinados elementos nutritivos, em seus regimes habituais, grupos inteiros de populações se deixam morrer lentamente de fome, apesar de comerem todos os dias.

É principalmente o estudo dessas coletivas fomes parciais, dessas fomes específicas, em sua infinita variedade, que constitui o objetivo nuclear do nosso trabalho.

Nos últimos dez anos após a publicação deste nosso livro, este conceito já ganhou foros internacionais. Por toda parte hoje se reconhece a existência desses vários tipos de fome, e se fala sem maior constrangimento na luta universal contra a fome, na batalha da fome etc. Deve-se, em grande parte, a implantação destes conceitos, até bem pouco considerados como revolucionários e heterodoxos, à própria FAO, que, a princípio discreta e reticente em falar em fome, preferindo em seus relatórios referir-se à subnutrição dos povos, acabou por aceitar a nomenclatura de fome, e a usá-la largamente como conceitos ortodoxos, rigorosamente científicos.

Visamos com a publicação deste ensaio contribuir com uma parcela infinitesimal para a construção do plano de ressurgimento de nossa civilização, através da revalorização fisiológica do homem. Poderá, à primeira vista, parecer uma desmedida pretensão que o autor de um estudo de categoria tão modesta como este, lhe atribua qualquer interferência — por mínima que seja — nos destinos universais da humanidade. Encontramos, porém, uma explicação e uma justificativa para nossa atitude, na afirmativa recente do filósofo inglês Bertrand Russell de que “nunca houve momento histórico no qual o concurso do pensamento e da consciência individuais fosse tão necessário e importante para o mundo como em nossos dias”. E mais ainda “que todo homem, qualquer homem comum, poderá contribuir para a melhoria do mundo” [8].

 É com esta mesma crença na obra de cooperação de cada um, de coparticipação ativa na busca de um mundo melhor, que planejamos esta obra abordando o tema da fome em sua expressão universal, mostrando com que intensidade e em que extensão o fenômeno se manifesta nas diferentes coletividades humanas.

4. De fato, o conhecimento exato da situação alimentar dos povos, dos recursos de que poderão dispor para satisfazer suas necessidades de nutrição, é absolutamente indispensável para que se leve a bom termo a revolução social que se processa com incrível velocidade nos dias em que vivemos. Revolução que, segundo se vislumbra pelas transformações já processadas, está criando universalmente um novo sistema de vida política, que poderemos chamar, como sugere Julian Huxley [9], a era do homem social, em contraposição a essa outra era que terminou com a Segunda Guerra Mundial, a era do homem econômico. O que caracteriza fundamentalmente esta nova era é uma focalização muito mais intensa do homem biológico como entidade concreta e a prioridade concedida aos problemas humanos sobre os problemas de categoria estritamente econômica no sentido da clássica economia do lucro. Realmente, enquanto até a última guerra a nossa civilização ocidental, em seu exagero de economismo, quase esquecera o homem e seus problemas, preocupando-se morbidamente em conquistar pela técnica todas as forças naturais, pondo todo o seu interesse nos problemas de exploração econômica e de produção de riqueza, vislumbra-se hoje o estabelecimento de formas políticas dispostas a sacrificar os interesses do lucro pelos interesses reais das coletividades. É a tentativa cada vez mais promissora de pôr o dinheiro a serviço do homem e não o homem escravo do dinheiro. De dirigir a produção de forma a satisfazer as necessidades dos grupos humanos e não deixar o homem matando-se estupidamente para satisfazer os insaciáveis lucros da produção.

Aparecendo na aurora dessa nova era social, onde a tenebrosa noite do fascismo ainda projeta as suas sombras, este livro pretende ser um documentário científico desta tragédia biológica, na qual inúmeros grupos humanos morreram e continuam morrendo de fome, ao finalizar-se esta escabrosa era do homem econômico.

Para que se compreenda bem e se possa perdoar o uso que faz o autor, em certas passagens do seu livro, de tintas um tanto negras, é bom que o leitor se lembre de que esta obra, documentário de uma era de calamidade, foi pensada e escrita sob a influência psicológica da pesada atmosfera que o mundo vem respirando nos últimos vinte anos. Atmosfera abafada pela fumaceira das bombas e dos canhões, pela pressão das censuras políticas, pelos gritos de terror e de revolta dos povos oprimidos e pelos gemidos dos vencidos e aniquilados pela fome. Atmosfera que o sociólogo Sorokin pinta com as seguintes palavras: “vivemos e agimos numa era de grandes calamidades. A guerra, a revolução, a fome e a peste cavalgam novamente em nosso planeta. Novamente elas cobram seu mortífero tributo à humanidade sofredora. Novamente elas influenciam cada momento da nossa existência: nossa mentalidade e nossa conduta, nossa vida social e nossos processos culturais” [10].

Devemos confessar honestamente que não nos foi possível fugir na elaboração do nosso trabalho a tão dominadora influência.

5. Várias foram as razões que nos levaram a planejar a realização desta obra em mais de um volume. A primeira delas é a desmedida extensão do seu campo de observação, abrangendo todos os continentes, investigando as condições de vida nos mais variados recantos da superfície da terra. Por mais impressionista que seja o retrato que tentamos pintar de cada uma das regiões estudadas, não é possível sintetizar os seus traços característicos atém de certos limites. A segunda razão se fundamenta na evidência de que um estudo de tal envergadura, mesmo quando as condições são as mais favoráveis à sua execução, leva vários anos para ser completado e a paciente espera para publicar todo o trabalho em conjunto tornaria um tanto antiquadas certas indicações bibliográficas e certos aspectos de atualidade do problema em suas manifestações regionais.

Considerando que o Brasil constituiu o nosso laboratório natural de observação sobre o problema a cujo estudo nos dedicamos há mais de vinte e cinco anos, achamos de toda a conveniência concentrarmo-nos de início na análise do fenômeno da fome no nosso país, de sua influência como fator biológico na formação e evolução dos nossos grupos humanos. Estudando o fenômeno da fome no nosso meio, daremos um balanço geral das influências de categoria biológica que têm interferido e pesado na modelagem de nossa cultura e de nossa civilização.

Buscando essa valorização dos fatores de categoria biológica, não quer dizer que desprezemos a importância dos fatores de natureza cultural, fatores da categoria do latifundismo agrário-feudal que tanto deformou o desenvolvimento da sociedade brasileira. Isto é inegável. O que tentaremos mostrar é que, mesmo quando se trata da pressão modeladora de forças econômicas ou culturais, elas se fazem sentir sobre ò homem e sobre o grupo humano, em última análise, através de um mecanismo biológico: através da deficiência alimentar que a monocultura impõe, através da fome que o latifúndio gera, e assim por diante. Não defenderemos, pois, nenhuma primazia na interpretação da evolução social brasileira. Nem o primado do biológico sobre o cultural, nem o do cultural sobre o biológico. O que pretendemos é pôr ao alcance da análise sociológica certos elementos do mecanismo biológico de ajustamento do homem brasileiro aos quadros naturais e culturais do país [11].

Não temos a pretensão de investigar a fundo, numa sondagem definitiva, a influência de todos os fatores dessa categoria: raça, clima, meio biótico, etc., que constituem a base orgânica da estrutura social dos nossos grupos humanos.

Estudando, porém, os recursos e os hábitos alimentares de várias regiões, teremos forçosamente que levar em consideração todos esses fatores ecológicos que participam ativamente na interação do elemento humano e dos quadros geográficos brasileiros. Caracterizando o tipo de alimentação e os variados tipos de fome que tem sofrido a nossa gente, estamos certos de que faremos refletir nessas características biológicas, com maior exatidão do que através do estudo de quaisquer outras manifestações de natureza ecológica, o grau de adaptação e ajustamento dos diferentes grupos regionais de nossas populações às variadas zonas geográficas do país. E são exatamente as expressões dessas variadas formas de adaptação que dão relevo à fisionomia cultural de uma nação. É por isso que julgamos ser este volume, até certo ponto, uma tentativa de interpretação biológica de determinados aspectos da formação e da evolução histórico-sociais brasileiras.

O nosso projeto inicial era escrever vários volumes sobre o fenômeno da fome universal — um volume sobre cada continente assolado por este flagelo social. A marcha dos trabalhos, a repercussão internacional que provocou o primeiro volume acerca do Brasil e a necessidade um tanto urgente de apresentar um panorama universal da matéria nesta hora grave do mundo, em que a humanidade se confronta com dois trágicos problemas — o da guerra e do medo da guerra e o da fome e do medo da fome — todos estes fatores em conjunto alteraram o nosso plano inicial. Chegamos, pois, à conclusão de que, após apreciar regionalmente o problema da fome no Brasil, seria útil apresentar o panorama do mundo em conjunto, dentro do mesmo método de estudo, embora sem a mesma riqueza de detalhes que um trabalho de categoria universal não poderia comportar. Assim, escrevemos e publicamos a nossa Geopolítica da Fome, que dentro do nosso esquema geral constituiu a segunda parte do nosso estudo do problema da fome em sua significação biológica, econômica e social.

NOTAS:

1. Marañon. Gregorio, “La Regulación Hormonal del Hambre”, in Estudios de Endocrinología,
1938.
2 Waldorf, Cornelius. The Famines of the World, 1878.
3 Réclus. Elisée, Nouvelle Géographie Universelle, 1875-94.
4 Desde 1928 a Liga das Nações inscreveu o problema da alimentação no programa de seus trabalhos, fazendo realizar, sob o patrocínio de sua Organização de Higiene, estudos detalhados em diferentes países e dando publicidade a uma série de valiosos relatórios sobre o assunto.
5 Ferenczi, Imre, L’Optimum Synthétique du Peuplement, 1938.
6 Blanche, Vidal de La, Príncipes de Géographie Humaine, 1922.
7 Sobre os aspectos fisiológicos da fome. consulte-se a obra recente de Masseyeff. René. La Faim, 1956.
8 Russell, Bertrand, Essais Sceptiques, Paris.
9 Huxley, Julian, On Living in a Revolution, 1944.
10 Sorokin, Pitirim A., Man and Society in Calamity, 1942.
11 Sobre a participação do biológico no mecanismo social consulte-se a série de interessantes estudos reunidos pelo eminente antropólogo R. Redfield, no livro Leveis of Integracion in Biological and Social Systems (1942). De grande valia para uma orientação firme nesse campo cientifico é também a obra de G. F. Gause — The Struggle for Exis-tence (1934). Alexander Lipschütz, no seu interessante livro El Indo-americanismo y el Problema Racial en lãs Américas, apresenta-nos um bom exemplo de aplicação bem orientada dos mais modernos conceitos de sociologia, na análise do biológico e do social na organização dos diferentes grupos de população deste continente.

(Prefácio de “Geografia da Fome).