sexta-feira, 1 de setembro de 2017

REVOLUÇÃO 4.0 OU A QUARTA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL


A Quarta Revolução Industrial, de Klaus Schwab

Supercomputadores móveis, cada vez mais onipresentes. Robôs inteligentes. Carros autoguiados. Aperfeiçoamento do cérebro através da neurotecnologia. Manipulação genética. São algumas das evidências de uma mudança dramática que está ocorrendo à nossa volta a uma velocidade inimaginada.

Autor do livro “A quarta revolução industrial” (The Fourth Industrial Revolution), o professor alemão Klaus Schwab, fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial, há mais de quatro décadas envolvido nos assuntos de interesse global, está convencido de que estamos no início de uma nova revolução industrial que vem mudando fundamentalmente a forma como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos.

As revoluções industriais anteriores libertaram a humanidade das limitações naturais, possibilitando pela primeira vez a produção em massa e a aproximação de milhares de pessoas por meio da rede internacional de computadores. A Quarta Revolução Industrial é, no entanto, profundamente diferente, pois se define por uma série de inovações tecnológicas que estão diluindo as fronteiras entre o mundo físico, a robótica e a biologia, o que alteraria drasticamente a ciência, a economia, a produção e até mesmo as ideias sobre o que é o ser humano.

Conforme o autor, estas mudanças poderiam indicar uma nova era extremamente promissora para a humanidade. O desenvolvimento atual produziu um enorme potencial tecnológico para unir milhões e milhões de pessoas ao redor do planeta, melhorou drasticamente a eficiência das instituições e organizações sociais, além de gerar ativos para a regeneração do meio ambiente devastado pelas revoluções industriais anteriores.

Entretanto, Schwab aponta muitas reservas, algumas perturbadoras. Segundo ele, é muito provável que as instituições sociais não estejam prontas para se adaptarem às rápidas mudanças em curso; os governos poderão negligenciar o emprego e a regulamentação das novas tecnologias na economia, o que afetaria o desenvolvimento econômico; as inconstâncias políticas poderiam criar instabilidades à segurança mundial; a desigualdade poderá aumentar ainda mais; e as sociedades tenderiam a se fragmentar.

No livro, o autor delimita a nova revolução ao contexto histórico atual e detalha as principais tecnologias que impulsionaram as transformações, discutindo seus impactos no cenário político, empresarial, social e mesmo na esfera dos indivíduos, sugerindo respostas para enfrentá-los. No cerne de sua análise está a convicção de que esses impactos podem estar sob o controle da humanidade desde que se fomente um dialogo interdisciplinar entre as diversas áreas do conhecimento e, daí, aproveitar as oportunidades surgidas das propostas vislumbradas.

Neste sentido, Schwab faz um apelo para que todos diversos setores da sociedade e da política “se unam para construir um futuro comum, colocando as pessoas acima de tudo, pois, lembra o autor, que a tecnologia é, antes de mais nada, uma ferramenta criada por pessoas para pessoas”.

Entender como a humanidade pode se beneficiada e superar os desafios desta revolução foi o tema principal da reunião anual do Fórum Econômico Mundial em 2016, realizado justamente sob o lema "Controlar a Quarta Revolução Industrial".

Os dados das pesquisas de grande amplitude, as grandes ideias e o conhecimento das redes globais, por líderes empresariais, governamentais, da sociedade civil e de jovens líderes, no Fórum Econômico Mundial, é analisado em profundidade pelo livro, numa perspectiva de como a humanidade pode assumir a responsabilidade coletiva de garantir um futuro melhor para todos.

NOTA DO BLOG: Se a teoria das etapas da Revolução Industrial já é em si bastante controvertida, o que pensar então de uma nova fase industrial? Mais estranho ainda é quem propõe a ideia: o Fórum Econômico Mundial. A questão principal é saber por que o Fórum Econômico Mundial trabalha com esta hipótese, que poderia ser compreendida como uma agenda capitalista com fins estratégicos e de mercado. Por isso o tema foi postado, porque se entende que, falso ou verdadeiro, o assunto é atual e fomenta o debate num terreno teórico tão movediço. Mas vindo de quem vem, não pode ser boa coisa.


terça-feira, 1 de agosto de 2017

LULA: CULPADO OU INOCENTE? NA OPINIÃO DE UM ANARQUISTA


Por João Monti

Todas as manchetes dos jornalões do país repercutiram – com júbilo disfarçado – a sentença condenatória do juiz Sérgio Moro no processo do qual Lula é réu com a seguinte frase: pela primeira vez na história do Brasil um ex-presidente da república foi condenado pela justiça.

O que é surpreendente, em se tratando de um país onde a corrupção é regra e não exceção!

Não apenas surpreendente, revela um significado de cunho perverso próprio da realidade brasileira. A questão correta deveria ser: por que na história do Brasil apenas um presidente foi condenado por corrupção?

Pouco surpreendente, por sinal, é a sentença de Lula, que nada tem a ver com corrupção.

Lula foi condenado porque, como tantos outros brasileiros condenados, é de origem pobre. Não é de hoje que o senso comum reza o velho adágio, de tão verdadeiro: no Brasil, só vai para a cadeia pobre, preto e mulato. As oligarquias burguesas do sudeste “branco” jamais engoliram a presença de um trabalhador, nordestino e ex-retirante, no mais alto cargo mandatário do país. Por isso, estas elites, de mentalidade escravocrata, exigiam punição exemplar a Lula.

Lula foi condenado e seus bens confiscados. Para a casa grande, não basta apenas esquartejar, é preciso salgar a terra e amaldiçoar até a terceira e quarta geração.

Se então a condenação de Lula já era um pressuposto, qual o pretexto para justificá-la?

Ao que parece, seu crime foi ter supostamente comprado um apartamento triplex no decadente Guarujá. Pelo menos, este é o entendimento da maior parte da população. E a plebe faz coro aos senhores: Que ousadia, um ex-metalúrgico, um reles trabalhador, como nós, comprar um triplex! Nada mais odioso, um pobretão querer dar uma de magnata. Pobre é pobre... Rico é rico... Como água e óleo.

E assim o povo esbravejou: o apedrejamento, em praça pública!

Para quem tem um pingo de inteligência e não é muito invejoso, esse argumento não convence.

Na verdade, para configurar crime a suposta compra do apartamento, Lula deveria oferecer em contrapartida vantagens indevidas à empreiteira OAS, receber propina em troca e usar o imóvel para lavar dinheiro. Isso nunca foi comprovado durante o processo. Na sentença, apenas suposições e indícios (ou como disse o juiz, “provas indiretas”). De fato, Moro se valeu do depoimento de duas testemunhas (ignorando dezenas de outras que inocentavam Lula) para condenar o ex-presidente. No direito, o testemunho é a prova de menor credibilidade, a prova mais frágil, no jargão preconceituoso da advocacia, é a prostituta de todas as provas. Conheci um rapaz que teve problemas na justiça e comprou cinco testemunhas com garotas de programa. É abominável, mas é verdade. Resultado da sentença: ele foi absolvido, mesmo sendo culpado. Portanto, a condenação de Lula, que deverá ser confirmada em segunda instância, carece de qualquer fundamentação jurídica. (Acredito até que Lula poderá ser absolvido no Supremo, mas até lá já vai estar fora do páreo eleitoral e condenado em outros processos).

Assim, se paira alguma sombra de dúvida, no direito vale a máxima de Voltaire: Mas vale absolver um culpado do que condenar um inocente.

É ingênuo, no entanto, creditar ao judiciário a faculdade de justiça. O poder judiciário não é nada mais do que uma instância superior de polícia e, como tal, tem função de reprimir o povo, em defesa das classes endinheiradas. O direito é uma ficção, não é ciência, não é lógica, e está sujeito à interpretação de pessoas passíveis de crenças, paixões, convicções, ideologias políticas etc. Programas de computadores poderiam julgar com muito mais imparcialidade, rapidez, eficiência e, o que é extraordinário, a custo quase zero.

Todavia, o que seduz o poder judiciário não é o ideal da justiça, não sejamos ingênuos, mas o dinheiro, que faz pender o fiel da balança sempre para o lado dos cifrões. Não é à toa que escritórios de advocacia ganham tanto, geralmente driblando a lei, e a magistratura constituir-se por uma casta de marajás acima da lei.

A “justiça” está a serviço dos grandes interesses econômicos e do Estado, que, por sua vez, serve a estes.

Mas, se a estrutura é tão fechada, então por que deixaram Lula chegar à presidência da república e não mataram a erva daninha pela raiz?

Porque, apesar de tudo, Lula nunca foi um rebelde.

Lula fez nome não como um revolucionário, ao modo de um Che Guevara, mas como um grande apaziguador, um mediador, um negociador dos interesses do patronado e do operariado.

Na política, Lula acreditou que poderia conciliar classes antagônicas, através de um governo de frente popular capaz de realizar um pacto social, e sempre julgou contar com a benevolência da mídia monopolista. Afinal, Lula nunca foi comunista. Basta analisar sua trajetória de vida, suas declarações, entrevistas, mesmo nos anos 80. Vide seus filhos: todos optaram por ser patrão, não empregado. Nenhum deles militou em causa dos trabalhadores. Mesmo Lula chegou a ser um empresário bem sucedido. Sua empresa de palestras e eventos, a LILS, faturou entre 2011 e 2015 27 milhões de reais, realizando palestras no mundo todo, que chegavam ao valor de 300 mil a 800 mil reais (todas declaradas à receita federal), tendo por clientes as empreiteiras Odebrecht, OAS, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, UTC Engenharia e Queiroz Galvão, os bancos BTG Pactual, Itaú, Bancomer e Bank of America, as cervejarias Ambev e Petrópolis, além das empresas Microsoft, Grupo Globo, Nestlé, LG Electronics, Pirelli, Lojas Americanas, entre outras. (Perto do que a empresa de consultoria do Ministro Henrique Meirelles faturou apenas no ano de 2016, R$ 217 milhões de lucro, dos quais 50 milhões aplicados no exterior, tendo entre clientes a JBS [Friboi], a empresa de Lula é café pequeno. Mas, claro, vão dizer os moralistas, Meirelles recebeu honestamente, assim como FHC e suas palestras; já com Lula... é propina. Quer saber, só tonto acredita nisso).

É possível compreender um Lula deslumbrado por ter se tornado um novo rico. Mas ainda assim, um rico modesto. Nada de apartamentos na avenida mais cara de Paris, fazendas, contas na Suíça, empresas de fachada, malas de dinheiro...

Sem dúvida, em determinado momento, Lula era útil.

Lula jamais quis mudar nada. Para Lula, não importa que os bancos tenham lucros recordes e a classe média ganhe muito dinheiro se em compensação os trabalhadores puderem se reunir no domingo para assistir uma partida de futebol e, depois, fazer um churrasquinho na laje, regado a muita cerveja e ao som de uma boa batucada de samba. Na mentalidade de Lula, os pobres se contentam com pouco e todos podem ganhar cada um ao seu modo. Lula é, na verdade, um defensor de um capitalismo soft.

O próprio PT, um partido de dirigentes burocratas, brancos, de classe média alta ou ricos, como o playboy Haddad, entre outros, sem um único trabalhador de fato, com exceção de Lula (e Vicentinho), e uma legião de filiados sem nenhuma expressão, verdadeiro curral eleitoral, abandonou totalmente a bandeira da ética, que o estigmatizou nos anos 80, e participou de toda sorte de falcatruas em nome da permanência no poder e da governabilidade, isto é, da manutenção do establishment. Aparelhando os movimentos sociais e esvaziando suas reais reivindicações, por meio de programas sociais baratos, cargos e favores, em nenhum momento o PT pôs em questão a derrubada do capitalismo. Ao contrário, tentou encarnar um projeto desenvolvimentista estrangulado pelo capital rentista e fomentou um capitalismo como há muito não se via por estas bandas. Nem é preciso fazer menção ao fato do governo PTista não ter feito as reformas agrária, urbana, política – fim do financiamento de campanha e paridade entre os partidos – e tributária – taxação dos mais ricos –, a auditoria da dívida pública, o fim dos super salários de funcionários públicos etc. O PT fez aquilo que podia fazer no contexto da democracia burguesa. Ficar amargurando o que os governos de Lula e Dilma poderiam ter feito e não fizeram, como a lei de mídia, é meramente especulativo. Ao contrário, o fato é que o governo Lula salvou o Grupo Globo da falência, injetando dinheiro público, via BNDES, na empresa. No máximo, o PT é um partido reformista, dentro dos limites rígidos do Estado de bem estar social em um país de economia dependente, como o brasil.

O que pode escandalizar a classe média de direita e anticomunista é que o projeto PTista em essência é o mesmo dos neoliberais, evidentemente, sem o conteúdo moralista da meritocracia, a saber, pressupõe a utopia do mercado como solução para resolver todos os problemas da humanidade e do universo.

Agora pensemos por um outro ângulo. Mesmo sem provas e supondo-se, no entanto, que os indícios na sentença realmente indicam que Lula praticou crime, embora sem ter deixado rastros, será que isto é motivo para o perseguirem unicamente? Pois, se de fato houvesse um combate à corrupção no Brasil, não iria sobrar uma única instituição e empresa de pé. E, se tal comparação tiver algum valor ilustrativo, Lula seria como um batedor de carteira se comparado a outros políticos e notórios empresários, verdadeiros assaltantes de banco.

Seja como for, Lula é apenas um bode expiatório, que deve ser exterminado, para purgar todas as culpas da hipócrita sociedade brasileira.

Diante de tudo que foi dito, cabe ainda mais uma pergunta: se Lula agradava a gregos e troianos, então por que condená-lo?

A marolinha de 2008 com o tempo se tornou um tsunami devastador, e diante da grave crise, os setores que realmente mandam no país, em ato de desespero, abriram a caixa de pandora, de onde saiu uma legião de demônios, para tentar salvar os seus estimados lucros. Alguém tinha de pagar essa conta e, como diz o dito popular, a corda sempre quebra no lado mais fraco: os trabalhadores, para não variar, foram os escolhidos mais uma vez.

Portanto, um governo conciliador perdia a razão de ser.

Daí por diante, ao som das panelas enfurecidas, atropelou-se tudo, para a desilusão daqueles que acreditavam que, enfim, no Brasil, as instituições estavam funcionando. A presidenta Dilma foi afastada por um imbróglio político-jurídico que ninguém entendeu; enquanto os usurpadores, mesmo flagrados com malas de dinheiro e em conversas mafiosas grampeadas, dão as cartas no congresso, com o apoio do STF e da complacência das, agora, condescendentes classes médias.

Eis, o coup d’état de 2016: a máscara da democracia liberal cai e uma escrachada pornochanchada bem brasileira, típica de uma republiqueta das bananas, bem ao gosto das comédias hollywoodianas, dá sonoras gargalhadas macunaímicas.


Na verdade, na verdade, não interessa se Lula é corrupto ou não, a justiça e a política venais, a impunidade dos poderosos ou mesmo a conjuntura atual, de Estado de exceção e arrocho aos trabalhadores. O sistema é podre. Não tenhamos ilusões. Num mundo em que em que somente oito homens (Bill Gates, Amancio Ortega, Warren Buffett, Carlos Slim, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg, Larry Ellison e Michael Bloomberg) concentram uma riqueza equivalente a mais da metade da população mundial (3,6 bilhões de pessoas) e 1% da população detém de uma renda compatível a dos 99% restantes, considerando-se que pelo menos 2,2 bilhões de pessoas vivem em estado de pobreza (um bilhão em estado de miséria extrema), não é apenas injusto, é moralmente deplorável. A corrupção não vai parar enquanto isso não mudar.

Mas Lula ainda merece a minha sentença.

Voltemos, enfim, à pergunta que intitula o texto.

Lula: culpado ou inocente?


Veredito: Inocente, daquilo que lhe acusam. Culpado, por ter se aliado àqueles que agora lhe acusam.

domingo, 2 de julho de 2017

GÊNIOS VS. CHARLATÕES: MILLÔR CONTRA FHC


INTRODUÇÃO DE JOÃO MONTI

No campo científico ou artístico, há dois tipos extremos: os gênios e os charlatões. Entre eles, acotovela-se a multidão dos medíocres. Embora seja equivocado estigmatizar, o gênio se enquadra bem no perfil popularizado pela ficção: é um sujeito excêntrico, abstraído do mundo, desinteressado pelas coisas cotidianas, desregrado e, de certa forma, guarda um quê de maluquice. O que faz o gênio ser gênio não é o trabalho exaustivo, metódico e disciplinado; mas aquele 1% de inspiração que falta aos outros. De nada adianta ao medíocre e ao charlatão exaustivas horas de estudo e trabalho se estes não tiverem – e eles de fato não têm – aquele bendito 1% de inspiração do gênio. Podem transpirar à vontade: 100%. Vão morrer secos! No caso específico dos medíocres, estes são os famosos CDFs, tão aferrados às regras do chefe e dos deveres da lição de casa: pobrezinhos, nunca dão em nada. Aliás, ambos, tanto o medíocre como charlatão, podem trabalhar muito, muitíssimo, por anos a fio e, tão certo como o dia vai nascer, nunca vão propor durante toda sua carreira uma só ideia interessante. Não é o que ocorre em absoluto com o gênio, que, do nada, pode conceber um pensamento capaz de mudar o mundo. É o famoso “eureka!”, exclusividade dessa coisa meio indefinível que se chama genialidade. A obra do gênio é a obra-prima, fica para sempre. O gênio será sempre lembrado por seus feitos, não pelo elogio de si mesmo que, porventura, poderia fazer, como recorrentemente faz o charlatão. Os outros, o medíocre e o charlatão, serão esquecidos assim que se aposentarem, não passam de sua própria geração (geralmente alunos ávidos por uma bolsa de pesquisa), ou serão lembrados por sua insignificância. O charlatão, sabedor de sua redundante mediocridade, mas ganancioso que é, procura suprir sua falta de gênio (o tal do 1% ao qual nos referimos e que realmente faz uma baita diferença), procura suprir sua falta de gênio através da política, ou melhor, da politicagem. É aí que o velhaco tem liberdade para agir de modo inescrupuloso, esgueirando-se pelos bastidores, comprando e vendendo apoio, para angariar prestígio pessoal. O gênio não liga para isso, faz o seu trabalho, e é incompreendido pelos medíocres, que, normalmente, lhe invejam, embora não confessem jamais. Por isso, os medíocres vão isolar o gênio, vão desclassificá-lo, depreciá-lo, taxá-lo de lunático, talvez até expulsá-lo, porque o gênio os faz perceber como são tão e irremediavelmente medíocres. Enquanto isso, o charlatão continua incansável nas sombras, barganhando favores, chantageando, até concentrar em suas mãos poder demasiado e imerecido. Na verdade, há muito ele abandonou a ciência ou arte, seu trabalho é meramente protocolar, atua deveras somente na burocracia. A burocracia, eis o habitat natural do medíocre e do charlatão! É aí onde eles se sentem mais à vontade, chafurdando em sua pequenez. Porém, enquanto o charlatão se destaca, devido às suas práticas antiéticas, o medíocre fica pelo meio do caminho. O medíocre é honesto demais. Evidentemente, não é o caso do vil charlatão, que faz da falsidade a condição de seu sucesso. Pois o charlatão é tão sórdido e sem limites, que, para atingir seus objetivos, frequentemente, ao corromper, trair, mentir etc. e tal, acaba por conquistar posições importantes na hierarquia institucional. Daí o fato de receber prêmios das mais diversas organizações, todas elas corruptas. Pode ser até analfabeto, mas não raro é agraciado com importantes prêmios literários! O que prova que não só o Nobel é uma fraude, mas 99,9999...% dos concursos de premiação que existem por aí, também. Sim, não só o esporte e a música pop vivem de jabá, a ciência e a arte estão repleta dele. Mas isso não importa, o charlatão sorri, cínica e exitosamente, e é bajulado por uma horda de puxa-sacos que não se cansa de elogiá-lo, de chamá-lo de gênio!!! Por outro lado, o gênio, ignorado por todos, não desanima, é um obstinado, conhece o seu valor e o valor de sua obra, vai em frente, solitário. Sim, uma hora vem a história, justiceira implacável, e passa como um trator em cima do medíocre e do charlatão, não restando nem um traque deles. Para, porém, respeitosa, diante do gênio, se curvar.

A inspiração para escrever este texto veio de dois fatores que descrevo a seguir. Um diz respeito às intrigas do Departamento de Geografia da USP, no qual convivi durante muito tempo e farei um breve comentário. O outro, refere-se ao texto abaixo, do qual também farei breve considerações.

Quando se conhece melhor o Departamento mencionado (acredito que pode se generalizar a outros departamentos também), e isso só se dá totalmente na pós-graduação, aprende-se que existem alguns grupos de pessoas, capitaneados por uma aliança de professores e sua tropa de pós-graduandos, que disputam ferrenhamente o poder departamental. O embate, no entanto, nunca é direto. Primeiro, são as piadinhas, o comentário espirituoso, a ironia, as insinuações, o falar por trás. Disso decorre uma séria de práticas sorrateiras, combinações insidiosas, conluios, culminando, enfim, num jogo extremamente sujo que a princípio não conviria a pessoas de tão alta instrução cultural. O problema é que quanto mais se disputa poder na burocracia, menos a produção acadêmica ou artística é relevante.

Gostaria de deixar registrado um exemplo concreto, pois, para a minha perplexidade, a iniciativa veio de alunos de pós-graduação! Lembro-me de que o grupo dos kurzianos passou a participar das comissões de avaliação de projeto de pesquisa justamente para pleitearem melhor classificação aos seus colegas de grupo no ranking de bolsa de estudo! Não só isso, lançavam-se a RD e, para serem eleitos, como de fato foram, aparelhavam assembleia (algo que sempre criticavam no movimento estudantil), ao mesmo tempo em que deslegitimavam a greve de trabalhadores por reajuste salarial. Tudo isso, para usar os termos deles, “para marcar posição”.

O segundo fator é sobre um texto muito divulgado na internet mas que fiz questão de publicar neste blog e que mostra como um gênio desmascara com simplicidade ímpar um charlatão tão pomposo que chega a dar náuseas. O gênio é o escritor Millôr Fernandes. O charlatão é o político Fernando Henrique Cardoso. FHC – juntamente com Enzo Faleto – é injustamente considerado o teórico da “teoria da dependência”. Na verdade, FHC apenas elaborou uma apologia da dependência – tal como atuou na política, esvaziando todo conteúdo crítico feito por teóricos pioneiros da "dependência", como Vânia Bambirra, Andrew Gunder Frank, Ruy Mauro Marini, entre outros. O fato é que, ao contrário de seu mestre, Florestan Fernandes, FHC não é e nunca será bibliografia obrigatória. Sua verdadeira face é a de um coronel udnista truculento, autoritário, patriarcal e avesso à modernidade.

Mas, já me alonguei demais, fiquemos agora com um tira gosto deste fantástico escritor que foi Millôr Fernandes e suas engraçadíssimas e verdadeiras lições sobre FHC.

Em tempo (1): Por que não indicar Michel Temer para uma cadeira na ABL? Tem tudo a ver! (Evidentemente, Machado de Assis não tem culpa nenhuma disso aí. Ah, se ele soubesse no que ia dar! Ah, se ele soubesse!!!).

Em tempo (2): Quando peguei "Casa Grande & Senzala" e li, no título do prefácio de FHC, "Um livro perene", fechei o livro naquele mesmo instante e rapidamente procurei a edição prefaciada por Dary Ribeiro (cujo prefácio, segundo minha ex-orientadora, é melhor do que o livro). FHC provavelmente deve ter um dicionário de sinônimos que lhe deve servir para trocar palavras do uso cotidiano por termos, digamos assim, tão pomposos quanto ele. Já descrevi neste blog como esta é uma tática típica daqueles que não tem nada para dizer. É o que eu chamo de fetichismo da postura e da linguagem acadêmica, ardil para iludir incautos que se impressionam com pedantes de vocabulário difícil e texto obscuro. Para esse tipo de gente, a verdade está tão oculta, mais tão oculta, que já nem está neste mundo, e somente hieroglifos que surgem inventados da cabeça de um professor profeta podem decifrá-la sem jamais explicar. Haja!
*****



O PENSAMENTO DE FHC ANALISADO POR MILLÔR FERNANDES

LIÇÃO PRIMEIRA

De uma coisa ninguém podia me acusar — de ter perdido meu tempo lendo FhC (superlativo de PhD).

Achava meu tempo melhor aproveitado lendo o Almanaque da Saúde da Mulher.

Mas quando o homem se tornou vosso Presidente, achei que devia ler o Mein Kampf (Minha Luta, em tradução literal) dele, quando lutava bravamente, no Chile, em sua Mercedes (“A mais linda Mercedes azul que vi na minha vida”, segundo o companheiro Weffort, na tevê, quando ainda não sabia que ia ser Ministro), e nós ficávamos aqui, numa boa, papeando descontraidamente com a amável rapaziada do Dops-DOI-CODI.

Quando, afinal, arranjei o tal Opus Magno — Dependência e Desenvolvimento na América Latina — tive que dar a mão à palmatória.

O livro é muito melhor do que eu esperava.

De deixar o imortal Sir Ney morrer de inveja.

Sem qualquerpartipri, e sem poder supervalorizar a obra, transcrevo um trecho, apanhado no mais absoluto acaso, para que os leitores babem por si:

“É evidente que a explicação técnica das estruturas de dominação, no caso dos países latino-americanos, implica estabelecer conexões que se dão entre os determinantes internos e externos, mas essas vinculações, em que qualquer hipótese, não devem ser entendidas em termos de uma relação “casual-analítica”, nem muito menos em termos de uma determinação mecânica e imediata do interno pelo externo. Precisamente o conceito de dependência, que mais adiante será examinado, pretende outorgar significado a uma série de fatos e situações que aparecem conjuntamente em um momento dado e busca-se estabelecer, por seu intermédio, as relações que tornam inteligíveis as situações empíricas em função do modo de conexão entre os componentes estruturais internos e externos. Mas o externo, nessa perspectiva, expressa-se também como um modo particular de relação entre grupos e classes sociais de âmbito das nações subdesenvolvidas. É precisamente por isso que tem validez centrar a análise de dependência em sua manifestação interna, posto que o conceito de dependência utiliza-se como um tipo específico de “causal-significante’ — implicações determinadas por um modo de relação historicamente dado e não como conceito meramente “mecânico-causal”, que enfatiza a determinação externa, anterior, que posteriormente produziria ‘consequências internas’.”

Concurso – E-mail:

Qualquer leitor que conseguir sintetizar, em duas ou três linhas (210 toques), o que o ociólogo preferido por 9 entre 10 estrelas da ociologia da Sorbonne quis dizer com isso, ganhará um exemplar do outro clássico, já comentado na primeira parte desta obra: Brejal dos Guajas — de José Sarney.

LIÇÃO SEGUNDA

Como sei que todos os leitores ficaram flabbergasted (não sabem o que quer dizer? Dumbfounded, pô!) com a Lição primeira sobre Dependência e Desenvolvimento da América Latina, boto aqui outro trecho — também escolhido absolutamente ao acaso — do Opus Magno de gênio da “profilática hermenêutica consubstancial da infraestrutura casuística”, perdão, pegou-me o estilo.

Se não acreditam que o trecho foi escolhido ao acaso, leiam o livro todo. Vão ver o que é bom!

Estrutura e Processo: Determinações Recíprocas

“Para a análise global do desenvolvimento não é suficiente, entretanto, agregar ao conhecimento das condicionantes estruturais a compreensão dos ‘fatores sociais’, entendidos estes como novas variáveis de tipo estrutural. Para adquirir significação, tal análise requer um duplo esforço de redefinição de perspectivas: por um lado, considerar em sua totalidade as ‘condições históricas particulares’ — econômicas e sociais — subjacentes aos processos de desenvolvimento no plano nacional e no plano externo; por outro, compreender, nas situações estruturais dadas, os objetivos e interesses que dão sentido, orientam ou animam o conflito entre os grupos e classes e os movimentos sociais que ‘põem em marcha’ nas sociedades em desenvolvimento. Requer-se, portanto, e isso é fundamental, uma perspectiva que, ao realçar as mencionadas condições concretas — que são de caráter estrutural — e ao destacar os móveis dos movimentos sociais — objetivos, valores, ideologias —, analise aquelas e estes em suas relações e determinações recíprocas. (…) Isso supõe que a análise ultrapasse a abordagem que se pode chamar de enfoque estrutural, reintegrando-a em uma interpretação feita em termos de ‘processo histórico’ (1). Tal interpretação não significa aceitar o ponto de vista ingênuo, que assinala a importância da sequência temporal para a explicação científica — origem e desenvolvimento de cada situação social — mas que o devir histórico só se explica por categorias que atribuam significação aos fatos e que, em consequência, sejam historicamente referidas.

(1) Ver, especialmente, W. W. Rostow, The Stages of Economic Growth, A Non-Communist Manifest, Cambridge, Cambridge University Press, 1962; Wilbert Moore, Economy and Society, Nova York, Doubleday Co., 1955; Kerr, Dunlop e outros, Industrialism and Industrial Man, Londres, Heinemann, 1962.”

Comentário do Millôr, intimidado:

A todo momento, conhecendo nossa precária capacitação para entender o objetivo e desenvolvimento do seu, de qualquer forma, inalcançável saber, o professor FhC faz uma nota de pata de página.

Só uma objeçãozinha, professor.

Comprei o seu livro para que o senhor me explicasse sociologia.

Se não entendo o que diz, em português tão cristalino, como me remete a esses livros todos? Em inglês!

Que o senhor não informa onde estão, como encontrar.

E outra coisa, professor, paguei uma nota preta pelo seu tratado, sou um estudante pobre, não tenho mais dinheiro.

Além do que, confesso com vergonha, não sei inglês.

Olha, não vá se ofender, me dá até a impressão, sem qualquer malícia, que o senhor imita um velho amigo meu, padre que servia na Paróquia de Vigário-Geral, no Rio.

Sábio, ele achava inútil tentar explicar melhor os altos desígnios de Deus pra plebe ignara do pequeno burgo e ensinava usando parábolas, epístolas, salmos e encíclicas.

E me dizia: “Millôr, meu filho, em Roma, eu como os romanos. Sendo vigário em Vigário-Geral, tenho que ensinar com vigarice”.

LIÇÃO TERCEIRA

Há vezes, e não são poucas, em que FhC atinge níveis insuperáveis.

Vejam, pra terminar esta pequena explanação, este pequeno trecho ainda escolhido ao acaso.

Eu sei, eu sei — os defensores de FhC, a máfia de beca, dirão que o acaso está contra ele. Mas leiam:

“É oportuno assinalar aqui que a influência dos livros como o de Talcot Parsons, The Social System, Glencoe, The Free Press, 1951, ou o de Roberto K. Merton, Social Theory and Social Structure, Glencoe, The Free press, 1949, desempenharam um papel decisivo na formulação desse tipo de análise do desenvolvimento. Em outros autores enfatizaram-se mais os aspectos psicossociais da passagem do tradicionalismo para o modernismo, como em Everett Hagen, On the Theory of Social Change, Homewood, Dorsey Press, 1962, e David MacClelland, The  Achieving Society, Princeton, Van Nostrand, 1961. Por outro lado, Daniel Lemer, em The Passing of Traditional Society: Modernizing the Middle East, Glencoe, The Free Press, 1958, formulou em termos mais gerais, isto é, não especificamente orientados para o problema do desenvolvimento, o enfoque do tradicionalismo e do modernismo como análise dos processos de mudança social”.

Amigos, não é genial? Vou até repetir pra vocês gozarem (no bom sentido) melhor: “formulou (em termos mais gerais, isto é, não especificamente orientados para o problema do desenvolvimento) o enfoque (do tradicionalismo e do modernismo) como análise (dos processos de mudança social)”.

Formulou o enfoque como análise!

É demais! É demais! E sei que o vosso sábio governando, nosso FhC, espécie de Sarney barroco-rococó, poderia ir ainda mais longe.

Poderia analisar a fórmula como enfoque.

Ou enfocar a análise como fórmula.

É evidente que só não o fez em respeito à simplicidade de estilo.

Tópico avulso sobre imodéstia e pequenos disparates do eremita preferido dos Mamonas Assassinas.

Vaidade todos vocês têm, não é mesmo? Mas há vaidades doentias, como as das pessoas capazes de acordar às três da manhã para falar dois minutos num programa de tevê visto por exatamente mais ou menos ninguém.

Há vaidades patológicas, como as de Madonas e Reis do Roque, só possíveis em sociedades que criaram multidões patológicas.

Mas há vaidades indescritíveis.

Vaidade em estado puro, sem retoque nem disfarce, tão vaidade que o vaidoso nem percebe que tem, pois tudo que infla sua vaidade é para ele coisa absolutamente natural. Quem é supremamente vaidoso, se acha sempre supremamente modesto.

Esse ser existe materializado em FhC (superlativo de PhD). Um umbigo delirante.

O que me impressiona é que esse homem, que escreve mal — se aquilo é escrever bem o meu poodle é bicicleta — e fala pessimamente — seu falar é absolutamente vazio, as frases se contradizem entre si, quando uma frase não se contradiz nela mesma, é considerado o maior sociólogo brasileiro.

Nunca vi nada que ele fizesse (Dependência e Desenvolvimento na América Latina, livro que o elevou à glória, é apenas um Brejal dos Guajas, mais acadêmico) e dissesse que não fosse tolice primária.

“Também tenho um pé na cozinha”, “(os brasileiros) são todos caipiras”, “(os aposentados) são uns vagabundos”, “(o Congresso) precisa de uma assepsia”, “Ser rico é muito chato”, “Todos os trabalhadores deviam fazer checape”, “Não vou transformar isso (a moratória de Itamar) num fato político”. “Isso (a violência, chamada de Poder Paralelo) é uma anomia”. E por aí vai.

Pra não lembrar o vergonhoso passado, quando sentou na cadeira da prefeitura de São Paulo, antes de ser derrotado por Jânio Quadros, segundo ele “um fantasma que não mete mais medo a ninguém”.

Eleito prefeito, no dia seguinte Jânio Quadros desinfetou a cadeira com uma bomba de Flit.

E, sempre que aproxima mais o país do abismo no qual, segundo a retórica política, o Brasil vive, esse FhC (superlativo de PhD) corre à televisão e deita a fala do trono, com a convicção de que, mais do que nunca, foi ele, the king of the black sweetmeat made of coconuts (o rei da cocada preta), quem conduziu o Brasil à salvação definitiva e à glória eterna.

E que todos querem ouvi-lo mais uma vez no Hosana e na Aleluia. Haja!

Millôr Fernandes, em "Crítica da razão impura ou o primado da ignorância".

domingo, 4 de junho de 2017

O CAMPO CIENTÍFICO - PIERRE BOURDIEU


O CAMPO CIENTÍFICO[1]

Pierre Bourdieu

A sociologia da ciência repousa no postulado de que a verdade do produto − mesmo em se tratando desse produto particular que é a verdade científica − reside numa espécie particular de condições sociais de produção; isto é, mais precisamente, num estado determinado da estrutura e do funcionamento do campo científico. O universo "puro" da mais "pura" ciência é um campo social como outro qualquer, com suas relações de força e monopólios, suas lutas e estratégias, seus interesses e lucros, mas onde todas essas invariantes revestem formas específicas.

A luta pelo monopólio da competência científica

O campo científico, enquanto sistema de relações objetivas entre posições adquiridas (em lutas anteriores), é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial. O que está em jogo especificamente nessa luta é o monopólio da autoridade científica definida, de maneira inseparável, como capacidade técnica e poder social; ou, se quisermos, o monopólio da competência científica, compreendida enquanto capacidade de falar e de agir legitimamente (isto é, de maneira autorizada e com autoridade), que é socialmente outorgada a um agente determinado[2].

Dizer que o campo é um lugar de lutas não é simplesmente romper com a imagem irenista da "comunidade científica" tal como a hagiografia científica a descreve − e, muitas vezes, depois dela, a própria sociologia da ciência. Não é simplesmente romper com a ideia de uma espécie de "reino dos fins" que não conheceria senão as leis da concorrência pura e perfeita das ideias, infalivelmente recortada pela força intrínseca da ideia verdadeira. É também recordar que o próprio funcionamento do campo científico produz e supõe uma forma específica de interesse (as práticas científicas não aparecendo como "desinteressadas" senão quando referidas a interesses diferentes, produzidos e exigidos por outros campos).

Falando de interesse científico e de autoridade (ou de competência) científica, pretendemos afastar, desde logo, as distinções que habitam, implicitamente, as discussões sobre a ciência. Assim, tentar dissociar o que, na competência científica, seria pura representação social, poder simbólico, marcado por todo um "aparelho" (no sentido de Pascal) de emblemas e de signos, e o que seria pura capacidade técnica, é cair na armadilha constitutiva de toda competência, razão social que se legitima apresentando-se como razão puramente técnica (conforme vemos, por exemplo, nos usos tecnocráticos da noção de competência)[3]. Na realidade, o "augusto aparelho" que envolve aqueles a quem chamávamos de "capacidades" no século passado e de “competências" hoje − becas rubras e arminho, sotainas e capelos dos magistrados e doutores em outros tempos, títulos escolares e distinções científicas dos pesquisadores de hoje − essa "ostentação tão autêntica", como dizia Pascal, toda essa ficção social que nada tem de socialmente fictício, modifica a percepção social da capacidade propriamente técnica. Assim, os julgamentos sobre a capacidade científica de um estudante ou de um pesquisador estão sempre contaminados, no transcurso de sua carreira, pelo conhecimento da posição que ele ocupa nas hierarquias instituídas (as Grandes Escolas, na França, ou as universidades, por exemplo, nos Estados Unidos).

Pelo fato de que todas as práticas estão orientadas para a aquisição de autoridade científica (prestígio, reconhecimento, celebridade etc.), o que chamamos comumente de "interesse" por uma atividade científica (uma disciplina, um setor dessa disciplina, um método etc.) tem sempre uma dupla face. O mesmo acontece com as estratégias que tendem a assegurar a satisfação desse interesse.

Uma análise que tentasse isolar uma dimensão puramente "política" nos conflitos pela dominação do campo científico seria tão falsa quanto o parti pris inverso, mais frequente, de somente considerar as determinações "puras" e puramente intelectuais dos conflitos científicos. Por exemplo, a luta pela obtenção de créditos e de instrumentos de pesquisa que hoje opõe os especialistas não se reduz jamais a uma simples luta pelo poder propriamente "político". Aqueles que estão à frente das grandes burocracias científicas só poderão impor sua vitória como sendo uma vitória da ciência se forem capazes de impor uma definição de ciência que suponha que a boa maneira de fazer ciência implica a utilização de serviços de uma grande burocracia científica, provida de créditos, de equipamentos técnicos poderosos, de uma mão-de-obra abundante. Assim, eles constituem em metodologia universal e eterna a prática de sondagens com amplas amostragens, as operações de análise estatística dos dados e formalização dos resultados, instaurando, como medida de toda prática científica, o padrão mais favorável às suas capacidades intelectuais e institucionais. Reciprocamente, os conflitos epistemológicos são sempre, inseparavelmente, conflitos políticos; assim, uma pesquisa sobre o poder no campo científico poderia perfeitamente só comportar questões aparentemente epistemológicas.

De uma definição rigorosa do campo científico enquanto espaço objetivo de um jogo onde compromissos científicos estão engajados resulta que é inútil distinguir entre as determinações propriamente científicas e as determinações propriamente sociais das práticas essencialmente sobredeterminadas. É preciso citar a descrição de Fred Reif que mostra, quase involuntariamente, o quanto é artificial e mesmo impossível a distinção entre interesse intrínseco e interesse extrínseco, entre o que é importante para o pesquisador determinado e o que é importante para os outros pesquisadores.

"Um cientista procura fazer as pesquisas que ele considera importantes. Mas a satisfação intrínseca e o interesse não são suas únicas motivações. Isto transparece quando observamos o que acontece quando um pesquisador descobre uma publicação com os resultados a que ele estava quase chegando: fica quase sempre transtornado, ainda que o interesse intrínseco de seu trabalho não tenha sido afetado. Isto porque seu trabalho não deve ser interessante somente para ele, mas deve ser também importante para os outros"[4].

O que é percebido como importante e interessante é o que tem chances de ser reconhecido como importante e interessante pelos outros; portanto, aquilo que tem a possibilidade de fazer aparecer aquele que o produz como importante e interessante aos olhos dos outros.

Para não correr o risco de voltar à filosofia idealista, que confere à ciência o poder de se desenvolver segundo sua lógica imanente[5], é preciso supor que os investimentos se organizam com referência a uma antecipação − consciente ou inconsciente − das chances médias de lucro em função do capital acumulado. Assim, a tendência dos pesquisadores a se concentrar nos problemas considerados como os mais importantes se explica pelo fato de que uma contribuição ou descoberta concernente a essas questões traz um lucro simbólico mais importante. A intensa competição assim desencadeada tem todas as chances de determinar uma baixa nas taxas médias de lucro material e/ou simbólico e, consequentemente, uma migração de pesquisadores em direção a novos objetos menos prestigiados, mas em torno dos quais a competição é menos forte[6].

A distinção que Merton estabelece (ao referir-se às ciências sociais) entre conflitos "sociais" e conflitos "intelectuais" constitui uma estratégia, ao mesmo tempo social e intelectual, que tende a impor uma delimitação do campo dos objetos legítimos de discussão[7]. Com efeito, reconhece-se nessa distinção uma das estratégias pela qual a sociologia americana oficial tende a garantir sua respeitabilidade acadêmica e a impor uma delimitação do científico e do não-científico que lhe permita coibir toda pergunta que, considerada como cientificamente inconveniente, ponha em questão os fundamentos de sua respeitabilidade[8].

Uma autêntica ciência da ciência só pode constituir-se com a condição de recusar radicalmente a oposição abstrata (que se encontra também na história da arte, por exemplo) entre uma análise imanente ou interna, que caberia mais propriamente à epistemologia e que restituiria a lógica segundo a qual a ciência engendra seus próprios problemas e, uma análise externa, que relacionaria esses problemas às condições sociais de seu aparecimento; e o campo científico, enquanto lugar de luta política pela dominação científica, que designa a cada pesquisador, em função da posição que ele ocupa, seus problemas, indissociavelmente políticos e científicos, e seus métodos, estratégias científicas que, pelo fato de se definirem expressa ou objetivamente pela referência ao sistema de posições políticas e científicas constitutivas do campo científico, são ao mesmo tempo estratégias políticas. Não há "escolha" científica − do campo da pesquisa, dos métodos empregados, do lugar de publicação; ou, ainda, escolha entre uma publicação imediata de resultados parcialmente verificados e uma publicação tardia de resultados plenamente controlados[9] − que não seja uma estratégia política de investimento objetivamente orientada para a maximização do lucro propriamente científico, isto é, a obtenção do reconhecimento dos pares-concorrentes.

A acumulação do capital científico

A luta pela autoridade científica, espécie particular de capital social que assegura um poder sobre os mecanismos constitutivos do campo e que pode ser reconvertido em outras espécies de capital, deve o essencial de suas características ao fato de que os produtores tendem, quanto maior for a autonomia do campo, a só ter como possíveis clientes seus próprios concorrentes. Isto significa que, num campo científico fortemente autônomo, um produtor particular só pode esperar o reconhecimento do valor de seus produtos ("reputação", "prestígio", "autoridade", "competência" etc.) dos outros produtores que, sendo também seus concorrentes, são os menos inclinados a reconhecê-lo sem discussão ou exame. De fato, somente os cientistas engajados no mesmo jogo detêm os meios de se apropriar simbolicamente da obra científica e de avaliar seus méritos. E também de direito: aquele que faz apelo a uma autoridade exterior ao campo só pode atrair sobre si o descrédito[10]. Muito semelhante, sob este aspecto, a um campo artístico fortemente autônomo, o campo científico deve, entre outras coisas, sua especificidade ao fato de que os concorrentes não podem contentar-se em se distinguir de seus predecessores já reconhecidos. Eles são obrigados, sob pena de se tornarem ultrapassados e "desqualificados", a integrar suas aquisições na construção distinta e distintiva que os supera.

Na luta em que cada um dos agentes deve engajar-se para impor o valor de seus produtos e de sua própria autoridade de produtor legítimo, está sempre em jogo o poder de impor uma definição da ciência (isto é, a de limitação do campo dos problemas, dos métodos e das teorias que podem ser considerados científicos) que mais esteja de acordo com seus interesses específicos. A definição mais apropriada será a que lhe permita ocupar legitimamente a posição dominante e a que assegure, aos talentos científicos de que ele é detentor a título pessoal ou institucional, a mais alta posição na hierarquia dos valores científicos (por exemplo, enquanto detentor de uma espécie determinada de capital cultural, como ex-aluno de uma instituição de ensino particular ou então como membro de uma instituição científica determinada etc.). Existe assim, a cada momento, uma hierarquia social dos campos científicos − as disciplinas − que orienta fortemente as práticas e, particularmente, as "escolhas" de "vocação". No interior de cada um deles há uma hierarquia social dos objetos e dos métodos de tratamento[11].

As discussões sobre a prioridade das descobertas opõem, em mais de um caso, aquele que descobriu o fenômeno desconhecido sob a forma de uma simples anomalia, de uma falha nas teorias existentes, e aquele que faz do fato desconhecido um fato científico novo, inserindo-o numa construção científica irredutível ao simples dado bruto. Essas discussões políticas sobre o direito e a propriedade científica, que são ao mesmo tempo debates sobre o sentido do que foi descoberto e debates epistemológicos sobre a natureza da descoberta científica, opõem na realidade, mediante protagonistas particulares, dois princípios de hierarquização das práticas científicas: um que confere primazia à observação e à experimentação e, portanto, às inclinações e capacidades correspondentes, outro que privilegia a teoria e os "interesses" científicos correlativos. Debate este que nunca cessou de ocupar o centro da reflexão epistemológica.

Assim, a definição do que está em jogo na luta científica faz parte do jogo da luta científica: os dominantes são aqueles que conseguem impor uma definição da ciência segundo a qual a realização mais perfeita consiste em ter, ser e fazer aquilo que eles têm, são e fazem. Diga-se, de passagem, que a communis doctorum opinio, como dizia a escolástica, não é mais que uma ficção oficial que nada tem de fictícia, pois a eficácia simbólica que sua legitimidade lhe confere permite que ela preencha uma função semelhante ao papel que a noção de opinião pública preenche para a ideologia liberal. A ciência oficial não é o que, frequentemente, dela faz a sociologia da ciência: o sistema de normas e valores que a "comunidade científica", grupo indiferenciado, imporia e inculcaria a todos os seus membros, a anomia revolucionária só podendo, assim, ser imputada aos que fracassaram na socialização científica[12]. Essa visão "durkheimiana" do campo científico poderia não ser mais que a transfiguração da representação do universo científico que os detentores da ordem científica têm interesse em impor, sobretudo aos seus concorrentes.

Não acabaríamos nunca de recensear os exemplos desse "funcionalismo", mesmo num autor que, como Kuhn, dá lugar ao conflito na sua teoria da evolução científica:

"uma comunidade de especialistas (das ciências) fará o possível para assegurar a progressão da acumulação dos dados que ela pode utilizar com precisão e detalhadamente"[13].

Visto que a "função", no sentido do "funcionalismo" da escola americana, nada mais é que o interesse dos dominantes (de um campo determinado, ou a classe dominante no campo da luta de classes) em perpetuar um sistema que esteja em conformidade com seus interesses (ou a função que o sistema preenche para essa classe particular de agentes), basta silenciar sobre os interesses (as funções diferenciais), fazendo da comunidade científica o sujeito das práticas, para cair no funcionalismo.

Por que a definição do que está em jogo na luta faz parte da luta (mesmo nas ciências como a matemática, onde o consenso aparente sobre o que está em jogo é muito alto), esbarramos, sem cessar, com as antinomias da legitimidade. O interesse apaixonado que os pesquisadores em ciências sociais têm pelas ciências da natureza não poderia ser compreendido de outro modo: é a definição dos princípios de avaliação de sua própria prática que está em jogo na pretensão de impor, em nome da epistemologia ou da sociologia da ciência, a definição legítima da forma mais legítima de ciência − a ciência da natureza. Tanto no campo científico quanto no campo das relações de classe não existem instâncias que legitimam as instâncias de legitimidade; as reivindicações de legitimidade tiram sua legitimidade da força relativa dos grupos cujos interesses elas exprimem: à medida que a própria definição dos critérios de julgamento e dos princípios de hierarquização estão em jogo na luta, ninguém é bom juiz porque não há juiz que não seja, ao mesmo tempo, juiz e parte interessada.

Vemos, assim, a ingenuidade da técnica dos "juízes" a que recorre comumente a tradição científica para definir as hierarquias características de um campo determinado: hierarquia dos agentes ou das instituições − as universidades dos EUA; hierarquia dos problemas, domínios ou métodos; hierarquia dos próprios campos etc. e, a mesma filosofia ingênua da objetividade que inspira o recurso a "especialistas internacionais". Como se a posição de observadores estrangeiros pudesse colocá-los ao abrigo dos parti pris e das tomadas de posição num momento em que a economia das trocas ideológicas conhece tantas sociedades multinacionais. E, ainda, como se suas análises "científicas” do estado da ciência pudessem ser outra coisa que não a justificação, cientificamente mascarada, do estado particular da ciência ou das instituições científicas com o qual compactuam.

Veremos adiante que a sociologia da ciência raramente escapa dessa estratégia de perícia enquanto imposição de legitimidade que prepara uma conquista de mercado. Por trás das problemáticas dos especialistas sobre o valor relativo dos regimes universitários se esconde, inevitavelmente, a questão das condições ótimas para o desenvolvimento da ciência e, consequentemente, do melhor regime político − os sociólogos americanos tendem a fazer da "democracia liberal" de estilo americano a condição da "democracia científica"[14].

A autoridade científica é, pois, uma espécie particular de capital que pode ser acumulado, transmitido e até mesmo, em certas condições, reconvertido em outras espécies. Podemos retomar a descrição de Fred Reif sobre o processo de acumulação de capital científico e as formas de sua reconversão. Isto no caso particular do campo da física contemporânea, onde a posse de capital científico tende a favorecer a aquisição de capital suplementar e onde a carreira científica "bem-sucedida" torna-se um processo contínuo de acumulação no qual o capital inicial, representado pelo título escolar, tem um papel determinante:

"Desde a high school, o futuro homem da ciência tem consciência do papel da competição e do prestígio no seu futuro êxito. Deve esforçar-se em obter as melhores notas para ser admitido no college e, mais tarde, no graduate school. Percebe que a passagem por um college reputado é de uma importância decisiva para ele (...) Enfim, ele deve ganhar a estima de seus professores para garantir-se cartas de recomendação que o ajudarão a entrar no college e a obter as bolsas e os prêmios (...) Quando ele estiver procurando emprego, estará em melhor posição se vier de uma instituição conhecida e se tiver trabalhado com algum pesquisador renomado. Em todo caso, para ele é essencial que, no mundo dos homens de primeira classe, se aceite fazer comentários favoráveis sobre o seu trabalho (...) O acesso a níveis universitários mais elevados está submetido aos mesmos critérios. A universidade exige de novo cartas de recomendação escritas por cientistas do Exterior e pode, algumas vezes, suscitar a formação de um comitê de exame, antes de tomar a decisão de promover alguém a um cargo de professor titular".

Esse processo continua com o acesso aos cargos administrativos, às comissões governamentais etc. O pesquisador depende também de sua reputação junto aos colegas para obter fundos para pesquisa, para atrair estudantes de qualidade, para conseguir subvenções e bolsas, convites, consultas, distinções (como Prêmio Nobel, National Academy of Science etc.).

O reconhecimento, marcado e garantido socialmente por todo um conjunto de sinais específicos de consagração que os pares-concorrentes concedem a cada um de seus membros, é função do valor distintivo de seus produtos e da originalidade (no sentido da teoria da informação) que se reconhece coletivamente à contribuição que ele traz aos recursos científicos já acumulados. O fato de que o capital de autoridade proporcionado pela descoberta seja monopolizado pelo primeiro a fazê-la ou, pelo menos, por aquele que a torna conhecida e reconhecida, explica a importância e a frequência das questões de prioridade. Se acontece que vários nomes estejam ligados à primeira descoberta, o prestígio atribuído a cada um deles diminui na proporção inversa. Aquele que chega a uma descoberta algumas semanas ou meses depois do outro despendeu seus esforços em pura perda, seus trabalhos se reduzindo ao estatuto de duplicação sem interesse de um trabalho já conhecido. Isto explica a precipitação que certos autores demonstram em publicar seus trabalhos, a fim de evitar que sejam ultrapassados[15]. O conceito de visibility que os autores americanos empregam frequentemente (trata-se, como sempre, de uma noção de uso corrente no meio universitário) exprime bem o valor diferencial, distintivo, dessa espécie particular de capital social: acumular capital é fazer um "nome", um nome próprio, um nome conhecido e reconhecido, marca que distingue imediatamente seu portador, arrancando-o como forma visível do fundo indiferenciado, despercebido, obscuro, no qual se perde o homem comum. Vem daí, sem dúvida, a importância das metáforas perceptivas, de que a oposição entre brilhante e obscuro é o paradigma na maioria das taxionomias escolares[16]. A lógica da distinção funciona plenamente no caso das assinaturas múltiplas, que reduzem, enquanto tal, o valor distintivo atribuído a cada um dos signatários. Podemos compreender, assim, o conjunto de observações de Harriet A. Zuckerman[17] sobre os "modelos da ordem em que os autores de artigos científicos são nomeados", como o produto das estratégias que visam minimizar a perda de valor distintivo imposta pelas necessidades da nova divisão de trabalho científico. Assim, para explicar que os laureados com o Prêmio Nobel não sejam nomeados em primeiro lugar com mais frequência do que os outros, como era de se esperar, tendo em vista que os autores são normalmente citados na ordem do valor relativo de suas contribuições, não é necessário invocar uma moral aristocrática tipo noblesse oblige; basta, com efeito, supor que a visibilidade de um nome numa série é função, em primeiro lugar, de sua visibilidade relativa, definida pelo grau que ele ocupa na série e, em segundo lugar, de sua visibilidade intrínseca, que resulta do fato de que, já conhecido, ele é mais facilmente reconhecido e retido (um dos mecanismos que fazem com que, também aqui, o capital leve ao capital). Por compreender que a tendência a deixar para os outros o primeiro lugar cresça à medida que cresce o capital possuído e, portanto, o lucro simbólico automaticamente assegurado, independentemente do grau em que os autores são nomeados[18]. O mercado dos bens científicos tem suas leis, que nada têm a ver com a moral. Arriscamo-nos a introduzir na ciência das ciências, sob diversos nomes "eruditos", o que os agentes chamam às vezes de "valores" ou "tradições" da "comunidade científica", se não soubermos reconhecer enquanto tais as estratégias que, nos universos onde se tem interesse no desinteresse, tendem a dissimular as estratégias. Essas estratégias de segunda ordem, através das quais nos colocamos dentro das regras, permitem somar às satisfações do interesse bem-compreendido os lucros mais ou menos universalmente prometidos às ações que não têm outra determinação aparente senão a do respeito puro e desinteressado da regra.

Capital científico e propensão a investir

A estrutura do campo científico se define, a cada momento, pelo estado das relações de força entre os protagonistas em luta, agentes ou instituições, isto é, pela estrutura da distribuição do capital específico, resultado das lutas anteriores que se encontra objetivado nas instituições e nas disposições e que comanda as estratégias e as chances objetivas dos diferentes agentes ou instituições. Basta perceber, aqui como em qualquer outro lugar, a relação dialética que se estabelece entre as estruturas e as estratégias − por meio das disposições − para fazer desaparecer a antinomia entre a sincronia e a diacronia, entre a estrutura e a História. A estrutura da distribuição do capital científico está na base das transformações do campo científico e se manifesta por intermédio das estratégias de conservação ou de subversão da estrutura que ela mesma produz. Por um lado, a posição que cada agente singular ocupa num dado momento na estrutura do campo científico é a resultante, objetivada nas instituições e incorporada nas disposições, do conjunto de estratégias anteriores desse agente e de seus concorrentes (elas próprias dependentes da estrutura do campo, pois resultam das propriedades estruturais da posição a partir da qual são engendradas). Por outro lado, as transformações da estrutura do campo são o produto de estratégias de conservação ou de subversão que têm seu princípio de orientação e eficácia nas propriedades da posição que ocupam aqueles que as produzem no interior da estrutura do campo.

Isso significa que, num determinado estado do campo, os investimentos dos pesquisadores dependem tanto na sua importância (medida, por exemplo, em tempo dedicado à pesquisa) quanto na sua natureza (e, particularmente, no grau do risco assumido) da importância de seu capital atual e potencial de reconhecimento e de sua posição atual e potencial no campo. Segundo uma lógica muitas vezes observada, as aspirações − o que chamamos muitas vezes de "ambições científicas" são tanto mais altas quanto o capital de reconhecimento é elevado: a posse do capital que o sistema escolar confere, sob a forma de um título raro, desde o começo da carreira científica, implica e supõe − através de mediações complexas − a busca de objetivos elevados, socialmente desejados e garantidos por esse título. Assim, tentar medir a relação estatística que se estabelece entre o prestígio de um pesquisador e o prestígio de seus títulos escolares de origem (Grande escola ou faculdade francesa, universidade que conferiu o doutoramento nos EUA), uma vez controlados os efeitos de sua produtividade[19], é assumir implicitamente a hipótese de que a produção e o prestígio atual são independentes (entre eles) e independentes dos títulos de origem. De fato, à medida que o título, enquanto capital escolar reconvertível em capital universitário e científico, encerra uma trajetória provável, ele comanda, por meio das "aspirações razoáveis" que ele autoriza, toda a relação com a carreira científica − escolha dos assuntos mais ou menos "ambiciosos", uma maior ou menor produtividade etc. De maneira que o efeito do prestígio das instituições não se exerce somente de maneira direta, "contaminando" o julgamento das capacidades científicas manifestadas na quantidade e na qualidade dos trabalhos, ou de maneira indireta, por meio de contatos com os mestres mais prestigiados que a elevada origem escolar garante (frequentem ente associada a uma elevada origem social), mas ainda pela mediação da "causalidade do provável", isto é, pela virtude das aspirações que autorizam e que favorecem as chances objetivas (poderíamos fazer observações análogas a respeito dos efeitos da origem social para títulos escolares de origem semelhantes). Assim, a oposição, por exemplo, entre os investimentos seguros da pesquisa intensiva e especializada e os investimentos arriscados da pesquisa extensiva que pode conduzir a vastas sínteses teóricas (revolucionárias ou até ecléticas) tende a produzir a oposição entre trajetórias elevadas e trajetórias inferiores no campo escolar e científico[20]. Do mesmo modo, para compreender as transformações das práticas científicas que acompanham o avanço na carreira é preciso relacionar as diferentes estratégias científicas (por exemplo, os investimentos maciços e extensivos unicamente em pesquisas ou investimentos moderados e intensivos em pesquisas associados a investimentos na administração científica), não com os grupos de idade, posto que cada campo define suas próprias leis de envelhecimento social[21], mas com a importância do capital possuído, que, definindo a cada momento as chances objetivas de lucro, define as estratégias "razoáveis" de investimento ou desinvestlmento. Nada é mais artificial que descrever as propriedades genéricas das diferentes fases da "carreira científica"[22]. Ainda que se trate da "carreira média" num campo particular[23]. Com efeito, toda carreira se define fundamentalmente pela posição que ela ocupa na estrutura do sistema de carreiras possíveis[24]. Existem tantos tipos de trajetórias quantas maneiras de entrar, de se manter e de sair da pesquisa. Toda descrição que se limita às características gerais de uma carreira qualquer faz desaparecer o essencial, isto é, as diferenças. O decréscimo da quantidade e da qualidade do trabalho científico com a idade, que podemos observar no caso das carreiras "médias" e que aparentemente se compreende se admitimos que o crescimento do capital de consagração tende a reduzir a urgência da alta produtividade que foi necessária para obtê-lo, só se torna completamente inteligível se compararmos as carreiras médias com as carreiras mais elevadas, que são as únicas a conferir até o fim os lucros simbólicos necessários à reativação contínua da propensão a investir, retardando, assim, continuamente o desinvestimento.

A ordem (científica) estabelecida

A forma que reveste a luta inseparavelmente científica e política pela legitimidade depende da estrutura do campo, isto é, da estrutura da distribuição do capital específico de reconhecimento científico entre os participantes na luta. Esta estrutura pode teoricamente variar entre dois limites teóricos, de fato jamais alcançados: de um lado, a situação de monopólio de capital específico de autoridade científica, de outro a situação de concorrência perfeita supondo a distribuição equitativa desse capital entre todos os concorrentes. O campo científico é sempre o lugar de uma luta, mais ou menos desigual, entre agentes desigualmente dotados de capital específico e, portanto, desigualmente capazes de se apropriarem do produto do trabalho científico que o conjunto dos concorrentes produz pela sua colaboração objetiva ao colocarem em ação o conjunto dos meios de produção científica disponíveis. Em todo campo se põem, com forças mais ou menos desiguais segundo a estrutura da distribuição do capital no campo (grau de homogeneidade), os dominantes, ocupando as posições mais altas na estrutura de distribuição de capital científico, e os dominados, isto é, os novatos, que possuem um capital científico tanto mais importante quanto maior a importância dos recursos científicos acumulados no campo.

Tudo parece indicar que, à medida que crescem os recursos científicos acumulados, e que, em consequência da elevação correlativa do direito de entrada, eleva-se o grau de homogeneidade entre os concorrentes, a concorrência científica tende a distinguir-se em sua forma e intensidade daquela que se observava em estados anteriores desses mesmos campos ou em outros campos onde os recursos acumulados são menos importantes e o grau de heterogeneidade mais elevado. Esquecendo de levar em conta essas propriedades estruturais e morfológicas dos diferentes campos (o que mais ou menos eles sempre fazem), os sociólogos da ciência se expõem a universalizar um caso particular. É assim que a oposição entre as estratégias de conservação e as estratégias de subversão − que será analisada a seguir − tende a se enfraquecer na medida em que a homogeneidade do campo cresce e que decresce correlativamente a probabilidade das grandes revoluções peri6dicas em proveito das inúmeras pequenas revoluções permanentes.

Na luta que os opõem, os dominantes e os pretendentes − os novatos, como dizem os economistas − recorrem a estratégias antagônicas profundamente opostas em sua lógica e no seu princípio. Os interesses (no duplo sentido da palavra) que os motivam e os meios que eles podem colocar em ação para satisfazê-Ios dependem estreitamente de sua posição no campo, isto é, de seu capital científico e do poder que ele lhes confere sobre o campo da produção e circulação científicas e sobre os lucros que ele produz. Os dominantes consagram-se às estratégias de conservação, visando 17 assegurar a perpetuação da ordem científica estabelecida com a qual compactuam. Essa ordem não se reduz, conforme comumente se pensa, à ciência oficial, conjunto de recursos científicos herdados do passado que existem no estado objetivado sob forma de instrumentos, obras, instituições etc., e no estado incorporado sob forma de hábitos científicos, sistemas de esquemas gerados de percepção, de apreciação e de ação, que são o produto de uma forma específica de ação pedagógica e que tornam possível a escolha dos objetos, a solução dos problemas e a avaliação das soluções. Essa ordem engloba também o conjunto das instituições encarregadas de assegurar a produção e a circulação dos bens científicos ao mesmo tempo que a reprodução e a circulação dos produtores (ou reprodutores) e consumidores desses bens, isto é, essencialmente o sistema de ensino, único capaz de assegurar à ciência oficial a permanência e a consagração, inculcando sistematicamente habitus científicos ao conjunto dos destinatários legítimos da ação pedagógica, em particular a todos os novatos do campo da produção propriamente dito. Além das instâncias especificamente encarregadas da consagração (academias, prêmios etc.), ele compreende ainda as revistas científicas que, pela seleção que operam em função de critérios dominantes, consagram produções conformes aos princípios da ciência oficial, oferecendo, assim, continuamente, o exemplo do que merece o nome de ciências, e exercendo uma censura de fato sobre as produções heréticas, seja rejeitando-as expressamente ou desencorajando simplesmente a intenção de publicar pela definição do publicável que elas propõem[25].

É o campo que designa a cada agente suas estratégias, ainda que se trate da que consiste em derrubar a ordem científica estabelecida. Segundo a posição que eles ocupam na estrutura do campo (e, sem dúvida, também segundo as variáveis secundárias tais como a trajetória social, que comanda a avaliação das oportunidades), os "novatos" podem orientar-se para as colocações seguras das estratégias de sucessão, próprias para lhes assegurar, ao término de uma carreira previsível, os lucros prometidos aos que realizam o ideal oficial da excelência científica pelo preço de inovações circunscritas aos limites autorizados; ou para as estratégias de subversão, investimentos infinitamente mais custosos e arriscados que só podem assegurar os lucros prometidos aos detentores do monopólio da legitimidade científica em troca de uma redefinição completa dos princípios de legitimação da dominação. Os novatos que recusam as carreiras traçadas só poderão "vencer os dominantes em seu próprio jogo" se empenharem um suplemento de investimentos propriamente científicos sem poder esperar lucros importantes, pelo menos a curto prazo, posto que eles têm contra si toda a lógica do sistema.

Por um lado, a invenção segundo uma arte de inventar já inventada, que, resolvendo os problemas susceptíveis de serem colocados nos limites da problemática estabelecida pela aplicação de métodos garantidos (ou trabalhando para salvaguardar os princípios contra as contestações heréticas), tende a fazer esquecer que ela só resolve os problemas que pode colocar ou só coloca os problemas que pode resolver. Por outro lado, a invenção herética que, colocando em questão os próprios princípios da antiga ordem científica, instaura uma alternativa nítida, sem compromisso possível, entre dois sistemas mutuamente exclusivos. Os fundadores de uma ordem científica herética rompem o contrato de troca que os candidatos à sucessão aceitam ao menos tacitamente: não reconhecendo senão o princípio da legitimação que pretendem impor, eles não aceitam entrar no ciclo das trocas de reconhecimento que assegura a transmissão regularizada da autoridade científica entre os detentores e os pretendentes (quer dizer, muito frequentemente, entre membros de gerações diferentes, o que leva muitos observadores a reduzirem os conflitos de legitimidade a conflitos de geração). Recusando todas as cauções e garantias que a antiga ordem oferece, recusando a participação (progressiva) ao capital coletivamente garantido que se realiza segundo procedimentos regulados de um dos contratos de delegação, eles realizam a acumulação inicial através de um golpe de força, por uma ruptura desviando em proveito próprio o crédito de que se beneficiavam os antigos dominantes, sem conceder-lhes a contrapartida do reconhecimento que lhes oferecem aqueles que aceitam se inserir na continuidade de uma linhagem[26].

Tudo leva a crer que a propensão às estratégias de conservação ou às estratégias de subversão é tanto mais dependente das disposições em relação à ordem estabelecida quanto maior for a dependência da ordem científica com relação à ordem social dentro da qual ela está inserida. Tem, portanto, fundamento supor que a relação que Lewis Feuer estabelece entre as inclinações universitária e politicamente subversivas do jovem Einstein e seu trabalho cientificamente revolucionário, vale, de certa maneira, a fortiori para as ciências como a biologia ou a sociologia que estão longe de terem alcançado o grau de autonomia da física dos tempos de Einstein. A oposição que esse autor estabelece entre as disposições revolucionárias de Einstein, membro, em sua juventude, de um grupo de estudantes judeus revoltados contra a ordem científica estabelecida e contra a ordem estabelecida, e as disposições reformistas que demonstra um Poincaré, perfeito representante da "república dos professores", homem da ordem e pela reforma ordenada, tanto na ordem política quanto na científica, não pode deixar de evocar a oposição homóloga entre Marx e Durkheim.

"Em seu esforço de reflexão original", diz Lewis Feuer, "Einstein foi apoiado por um estranho pequeno círculo de jovens intelectuais, cheios de sentimentos de revolta social e científica própria de sua geração e que formavam uma contracomunidade científica fora da instituição oficial, um grupo de boêmios cosmopolitas levados, nesses tempos revolucionários, a considerar o mundo de uma maneira nova"[27].

Superando a oposição ingênua entre habitus individuais e condições sociais de sua realização, Lewis Feuer sugere a hipótese, corroborada pelos recentes trabalhos sobre o sistema de ensino científico[28], de que o fácil e rápido acesso às responsabilidades administrativas que se ofereciam na França aos alunos das Grandes Escolas científicas tendia a desencorajar a revolta contra a ordem (científica) estabelecida. Nos grupos de intelectuais marginais, ao contrário, a revolta encontrava um terreno favorável, posto que estes se achavam em situação de precário equilíbrio entre o sistema de ensino e a boêmia revolucionária:

"Podemos, na verdade, arriscar a hipótese de que, precisamente porque a França era uma 'república de professores' e porque os mais brilhantes alunos da escola politécnica eram rapidamente absorvidos para a alta função militar e a engenharia civil, não seria verossímil que uma ruptura radical com os princípios recebidos pudesse ter lugar. Uma revolução científica encontra seu terreno mais fértil numa contracomunidade. Quando o jovem cientista encontra muito rapidamente responsabilidades administrativas, sua energia está menos disponível para a sublimação no radicalismo de uma pesquisa pura. Tratando-se da criatividade revolucionária, a própria abertura da administração francesa aos talentos científicos constitui, talvez, um fator explicativo do conservadorismo científico, mais importante que todos os outros fatores habitualmente adiantados."

Da revolução inaugural à revolução permanente

Quais são as condições sociais que devem ser preenchidas para que se instaure um jogo social onde prevaleça a ideia verdadeira, porque os que dele participam têm interesse na verdade, em vez de ter, como em outros jogos, a verdade de seus interesses? É evidente que não se trata de fazer desse universo social de exceção uma exceção das leis fundamentais de todo campo, e, em particular, da lei do interesse que pode conferir uma violência impiedosa às lutas científicas mais "desinteressadas" (o "desinteresse" não sendo senão, como vimos, um sistema de interesses específicos: tanto artísticos e religiosos quanto científicos, que a relativa indiferença para com os objetos ordinários do interesse, dinheiro, honras etc., implica). O fato de que o campo científico comporte sempre uma parte de arbitrário social na medida em que ele se serve dos interesses daqueles que, no campo e/ou fora dele, são capazes de receber os proveitos, não exclui que, sob certas condições, a própria lógica do campo (em particular, a luta entre dominantes e recém-chegados e a censura mútua que daí resulta) exerça um desvio sistemático dos fins que transforma continuamente a busca dos interesses científicos privados (no duplo sentido da palavra) em algo de proveitoso para o progresso da ciência[29].

As teorias da ciência e de suas transformações predispõem-se a preencher funções ideológicas nas lutas dentro do campo científico (ou nos campos que pretendem a cientificidade, como o das ciências sociais) porque elas universalizam as propriedades ligadas a estados particulares desses campos: é o caso da teoria positivista que confere à ciência o poder de resolver todas as questões que ela coloca (desde que cientificamente colocadas) e de impor, pela aplicação de critérios objetivos, o consenso sobre suas soluções; inscreve, assim, o progresso na rotina da "ciência normal" e age como se pudesse passar de um sistema para outro − de Newton a Einstein, por exemplo − pela simples acumulação de conhecimentos, pelo refinamento das medidas e pela retificação dos princípios. O mesmo pode ser dito da teoria de Kuhn que, válida para as revoluções inaugurais da ciência debutante (de que a revolução copernicana nos dá o paradigma no verdadeiro sentido da palavra) retoma simplesmente o modelo positivista invertido[30].30 Na verdade, o campo da astronomia onde se dá a revolução copernicana se opõe ao campo da física do mesmo modo que o mercado "submerso nas relações sociais" (embedded in social relationships) das sociedades arcaicas se opõe, segundo Polanyi, ao "mercado auto-regulado" (self-regulating market) das sociedades capitalistas. Não é por acaso que a revolução copernicana implica a reivindicação expressa de autonomia por um campo científico ainda "imerso" no campo religioso e no campo da filosofia e, por seu intermédio, no campo da política. Esta reivindicação implica a afirmação do direito dos cientistas a decidir as questões científicas ("a matemática aos matemáticos") em nome da legitimidade específica que lhes confere sua competência.

Enquanto o método científico e a censura e/ou a assistência que ele impõe ou propõe não estejam objetivados em mecanismos e em disposições, as rupturas científicas tomam necessariamente a forma de revoluções contra a instituição, e as revoluções contra a ordem científica estabelecida permanecem inseparáveis das revoluções contra a ordem estabelecida. Quando, ao contrário, graças a essas revoluções originárias, se encontra excluído qualquer recurso a armas ou poderes, ainda que puramente simbólicos, diferentes dos que são comuns ao campo, o próprio funcionamento deste passa a definir cada vez mais completamente não apenas a ordem ordinária da "ciência normal", mas também as rupturas extraordinárias, essas "revoluções ordenadas", como diz Bachelard, que estão inscritas na lógica da história da ciência, isto é, da polêmica científica[31]. Quando o método está inscrito nos mecanismos do campo, a revolução contra a ciência instituída se opera com a assistência de uma instituição que fornece as condições institucionais da ruptura; o campo torna-se o lugar de uma revolução permanente, mas cada vez mais desprovida de efeitos políticos. É por isto que esse universo da revolução permanente pode ser também, sem contradição, o do "dogmatismo legítimo"[32]: o equipamento científico necessário à revolução científica só pode ser adquirido na e pela cidadela científica. Na medida em que aumentam os recursos científicos acumulados, torna-se cada vez mais importante o capital científico incorporado necessário para apropriá-los e ter, assim, acesso aos problemas e instrumentos científicos, isto é, à luta científica (direito de entrada)[33]. Segue-se daí que a revolução científica não interessa aos mais desprovidos, mas aos que são, ao contrário, entre os novatos, os mais ricos cientificamente[34]. A antinomia entre ruptura e continuidade se enfraquece num campo que, ignorando a distinção entre as fases revolucionárias e a "ciência normal", encontra na ruptura contínua o verdadeiro princípio de sua continuidade; correlativamente, a oposição entre as estratégias de sucessão e as estratégias de subversão tendem cada vez mais a perder seu sentido posto que a acumulação do capital necessário à realização das revoluções e do capital que as revoluções permitem obter tende sempre, cada vez mais, a se realizar segundo os padrões regulamentados de uma carreira[35].

A transmutação do antagonismo anárquico dos interesses particulares em dialética científica torna-se cada vez mais total à medida que o interesse que todo produtor de bens simbólicos tem em produzir produtos "que não sejam somente interessantes para ele mesmo," como afirma Pred Reif, "mas também importantes para os outros" (produtos próprios a obter dos outros que reconheçam a sua importância e a de seu autor) se choca com concorrentes mais capazes de colocar os mesmos meios a serviço das mesmas intenções − o que leva, cada vez mais frequentemente, com as descobertas simultâneas, ao sacrifício dos interesses de um dos produtores ou dos dois[36]; ou, dito de outro modo, na medida em que o interesse privado que cada agente singular tem em combater e dominar seus concorrentes para obter deles o reconhecimento está munido de todo um conjunto de instrumentos que conferem plena eficácia à sua intenção polêmica dando-lhe todo o alcance universal de uma censura metódica. E, de fato, à medida que aumentam os recursos acumulados e o capital necessário à sua apropriação, o mercado onde o produto científico pode ser colocado se restringe, sem cessar, a concorrentes cada vez mais fortemente armados de instrumentos para criticá-lo racionalmente e desacreditar seu autor: o antagonismo, que é o princípio da estrutura e da transformação de todo campo social, tende a tomar-se cada vez mais radical e fecundo porque o acordo forçado onde se engendra a razão deixa cada vez menos lugar ao impensado e a doxa. A ordem coletiva da ciência se elabora na e pela anarquia concorrencial das ações interessadas, cada agente encontrando-se dominado − e, com ele, todo o grupo − pelo entrecruzamento aparentemente incoerente das estratégias individuais. Assim, a oposição entre os aspectos "funcionais" e "disfuncionais" do funcionamento de um campo científico dotado de uma grande autonomia não tem sentido: as tendências mais "disfuncionais" (por exemplo, a propensão ao segredo e a recusa de cooperação) estão inscritas nos próprios mecanismos que engendram as disposições mais "funcionais". Na medida em que o "método científico se inscreve nos mecanismos sociais que regulam o funcionamento do campo e que se encontra, assim, dotado da objetividade superior de uma lei social imanente, pode realmente objetivar-se em instrumentos capazes de controlar e algumas vezes dominar aqueles que o utilizam e nas disposições duravelmente constituídas que a instituição escolar produz. Essas disposições encontram um reforço contínuo nos mecanismos sociais que, achando suporte no materialismo racional. da ciência objetivada e incorporada, produzem controle e censura, mas também invenção e ruptura[37].

A ciência e os doxósofos

A ciência jamais teve outro fundamento senão o da crença coletiva em seus fundamentos, que o próprio funcionamento do campo científico produz e supõe. A própria orquestração objetiva dos esquemas práticos inculcados pelo ensinamento explícito e pela familiarização − fundamento do consenso do que está em jogo no campo, isto é, dos problemas, dos métodos e das soluções imediatamente percebidos como científicos − encontra seu fundamento no conjunto dos mecanismos institucionais que asseguram a seleção social e escolar dos pesquisadores (em função, por exemplo, da hierarquia estabelecida das disciplinas), a formação dos agentes selecionados, o controle do acesso aos instrumentos de pesquisa e de publicação etc[38]. O campo de discussão que a ortodoxia e a heterodoxia desenham, através de suas lutas, se recorta sobre o fundo do campo da doxa, conjunto de pressupostos que os antagonistas admitem como sendo evidentes, aquém de qualquer discussão, porque constituem a condição tácita da discussão[39]: a censura que a ortodoxia exerce − e que a heterodoxia denuncia − esconde uma censura ao mesmo tempo mais radical e invisível porque constitutiva do próprio funcionamento do campo, que se refere ao conjunto do que é admitido pelo simples fato de pertencer ao campo, o conjunto do que é colocado fora da discussão pelo fato de aceitar o que está em jogo na discussão, isto é, o consenso sobre os objetos da dissensão, os interesses comuns que estão na base dos conflitos de interesse, todo o nãodiscutido, o não-pensado, tacitamente mantidos fora dos limites da luta[40].

Dependendo do grau de autonomia do campo com relação às determinações externas, é maior a parte de arbitrário social englobada ao sistema de pressupostos constitutivos do campo considerado. Isto significa que, no espaço abstrato da teoria, qualquer campo científico − o das ciências sociais ou da matemática, hoje, ou o da alquimia ou da astronomia matemática do tempo de Copérnico − pode estar situado em algum ponto entre os dois limites representados, de um lado, pelo campo religioso (ou o campo da produção literária), no qual a verdade oficial nada mais é do que a imposição legítima (isto é, arbitrária, e não reconhecida enquanto tal) de um arbitrário cultural exprimindo o interesse específico dos dominantes − dentro do campo e fora dele − e, de outro lado, por um campo científico que baniria qualquer elemento de arbitrário (ou de não-pensado) social e onde os mecanismos sociais realizariam a imposição necessária das normas universais da razão.

A questão que assim se coloca é a do grau de arbitrário social da crença que o funcionamento do campo produz e que é a condição de seu funcionamento ou, o que dá no mesmo, a questão do grau de autonomia do campo (em relação, primeiro, à demanda social da classe dominante) e das condições sociais, internas e externas, dessa autonomia. O princípio de todas as diferenças entre campos científicos − capazes de produzir e de satisfazer um interesse propriamente científico e de manter, assim, um processo dialético interminável − e campos de produção de discurso eruditos − onde o trabalho coletivo só tem por efeito e função perpetuar o campo idêntico a ele mesmo, produzindo, tanto dentro quanto fora, a crença no valor autônomo dos objetivos e dos objetos que ele produz − reside na relação de dependência pela aparência de independência em relação às demandas externas: os doxósofos, cientistas aparentes e cientistas da aparência, só podem legitimar o despojamento que eles operam pela constituição arbitrária de um saber esotérico inacessível ao profano e a delegação que eles exigem ao se arrogarem o monopólio de certas práticas ou a reflexão sobre elas, com a condição de imporem a crença de que sua falsa ciência é perfeitamente independente das demandas sociais e que ela só satisfaz tão bem porque afirma sua grande recusa de servi-las.

De Heidegger falando das "massas" e das "elites" na linguagem altamente eufemística do "autêntico" e do "inautêntico" aos politicólogos americanos, reproduzindo a visão oficial do mundo social nas semi-abstrações de um discurso descritivo-normativo, é sempre a mesma estratégia da falsa ruptura que define o jargão erudito por oposição à linguagem científica. Onde a linguagem científica coloca aspas, como observa Bachelard, para assinalar que as palavras da linguagem ordinária ou da linguagem científica anterior que ela conserva estão completamente redefinidas e retiram seu sentido do novo sistema teórico[41], a linguagem erudita usa aspas ou neologismos somente para manifestar simbolicamente uma distância e uma ruptura fictícias em relação ao senso comum: não dispondo de nenhuma autonomia real, ela só pode, com efeito, produzir completamente seu efeito ideológico conservando-se suficientemente transparente para continuar evocando a experiência e a expressão ordinária que ela define e denega.

As estratégias da falsa ruptura exprimem a verdade objetiva de campos que só dispõem de uma falsa autonomia: com efeito, enquanto a classe dominante concede às ciências da natureza uma autonomia que se mede pelo seu grau de interesse nas aplicações das técnicas científicas na economia, ela nada tem a esperar das ciências sociais, a não ser, no melhor dos casos, uma contribuição particularmente preciosa para a legitimação da ordem estabelecida e um reforço do arsenal dos instrumentos simbólicos de dominação. O desenvolvimento tardio e sempre ameaçado das ciências sociais aí está para testemunhar que o progresso em direção à autonomia real − que condiciona e supõe, ao mesmo tempo, a instauração de mecanismos constitutivos de um campo científico auto-regulado e autárquico − se choca, necessariamente, com obstáculos desconhecidos alhures: e não pode ser de outro modo, porque o que está em jogo na luta interna pela autoridade científica no campo das ciências sociais, isto é, o poder de produzir, impor e inculcar a representação legítima do mundo social, é o que está em jogo entre as classes no campo da política[42]. Segue-se daí que as posições na luta interna não podem jamais atingir o grau de independência com relação às posições nas lutas externas que se observa no campo das ciências da natureza. A ideia de uma ciência neutra é uma ficção, e uma ficção interessada, que permite fazer passar por científico uma forma neutralizada e eufêmica, particularmente eficaz simbolicamente porque particularmente irreconhecível, da representação dominante do mundo social[43]. Desvendando os mecanismos sociais que asseguram a manutenção da ordem estabelecida, cuja eficácia propriamente simbólica repousa no desconhecimento de sua lógica e de seus efeitos, fundamento de um reconhecimento sutilmente extorquido, a ciência social toma necessariamente partido na luta política. Portanto, quando ela consegue instaurar-se (o que supõe certas condições preenchidas, correlativas a um estado determinado da relação de forças entre as classes), a luta entre a ciência e a falsa ciência dos doxósofos (que podem reclamar para si as mais revolucionárias tradições teóricas) traz, necessariamente, uma contribuição para a luta entre as classes, que, pelo menos neste caso, não tem igualmente o mesmo interesse em relação à verdade científica.

A questão fundamental da sociologia da ciência toma, no caso das ciências sociais, uma forma particularmente paradoxal: Quais são as condições sociais de possibilidade do desenvolvimento de uma ciência liberta das pressões e das demandas sociais, sabendo que, neste caso, os progressos no sentido da racionalidade científica não são progressos no sentido da neutralidade política? Não se pode negar a questão a o que fazem, por exemplo, aqueles que imputam as particularidades das ciências sociais ao fato de sua recentidade, em nome de uma filosofia ingenuamente evolucionista que coloca a ciência oficial no termo da evolução. Na verdade, a teoria do atraso só é verdadeira, paradoxalmente, no caso da sociologia oficial e, mais precisamente, da sociologia oficial da sociologia. Basta, com efeito, ter em mente as célebres análises de Alexander Gerschenkron sobre o "atraso econômico", para compreender os traços mais característicos dessas formas particulares de discurso erudito que são as falsas ciências. Gerschenkron nota, com efeito, que, quando o processo de industrialização começa com atraso, ele apresenta diferenças sistemáticas em relação àqueles que se deram em países mais desenvolvidos, não somente no que concerne às "estruturas produtivas e organizacionais", isto porque ele coloca em ação "instrumentos institucionais" originais e porque se desenvolve num clima ideológico diferente[44]. É a existência de ciências mais avançadas − grandes fornecedoras não somente de métodos e de técnicas geralmente empregadas fora das condições técnicas e sociais de validade, mas também de exemplos − que permite à sociologia oficial atribuir-se aparências de cientificidade: a ostentação de autonomia pode tomar, aqui, uma forma sem precedentes, de que o esoterismo, sabiamente fomentado das velhas tradições letradas, representa uma pobre antecipação. A sociologia oficial visa não a se realizar enquanto ciência, mas a realizar a imagem oficial da ciência que a sociologia oficial da ciência, espécie de instância jurídica que a comunidade (a palavra se aplica perfeitamente neste caso) dos sociólogos oficiais se atribui, tem por função fornecer-lhe, ao preço de uma reinterpretação positivista da prática científica das ciências da natureza.

Para ficarmos completamente convencidos da função ideológica justificadora que a história social das ciências sociais preenche, tal como é praticada no establishment americano[45], bastaria recensear o conjunto dos trabalhos direta ou indiretamente consagrados à competição, palavra-chave de toda sociologia da ciência americana que, na sua obscuridade de conceito nativo promovido à dignidade científica, condensa todo o não-pensado (a doxa) dessa sociologia. A tese segundo a qual produtividade e competição estão diretamente ligadas[46] inspira-se numa teoria funcionalista da competição, variante sociológica da crença nas virtudes do "mercado livre". A palavra inglesa competition designa também o que chamamos de concorrência: reduzindo toda competição a competição entre universidades ou fazendo da competição entre universidades a condição da competição entre pesquisadores, nunca nos questionamos sobre os obstáculos à competição científica, imputáveis à competição ao mesmo tempo econômica e científica que tem lugar no academic market place.

A competição que essa ciência institucional reconhece é a competição que se dá dentro dos limites da conveniência social que faz tanto mais fortemente obstáculo à verdadeira competição científica capaz de colocar em questão a ortodoxia − quanto mais carregado de arbitrário social for o universo em que estivemos situados. Pode-se compreender, portanto, que a exaltação da unanimidade do "paradigma" possa coincidir com a exaltação da competição − ou, ainda, que se possa, segundo os autores, censurar a sociologia européia por pecar pelo excesso ou pela falta de competição.

Além das ferramentas e das técnicas − computadores e programas de reprocessamento automático dos dados, por exemplo − a sociologia oficial toma emprestado da imaginação positivista um modelo de prática científica representada com todos os atributos simbólicos da respeitabilidade científica: máscaras e artifícios tais como os gadgets tecnológicos e o kitsh retórico, e um modelo da organização do que ela chama de "comunidade científica", concebido pela sua pobre ciência das organizações. Mas a sociologia oficial não tem o monopólio das leituras interessadas da história da ciência: a dificuldade particular que a sociologia tem em pensar cientificamente a ciência relaciona-se com o fato de que ela está situada na parte mais baixa da hierarquia social das ciências. Seja elevando-se para pensar as ciências mais científicas, melhor do que elas próprias o fazem, seja abaixando-se para registrar a imagem triunfante que a hagiografia científica produz e propaga, a sociologia tem sempre a mesma dificuldade de se pensar enquanto ciência, isto é, pensar sua posição na hierarquia social das ciências.

Isso pode ser visto, com toda clareza, nas reações que o livro de Thomas Kuhn[47] suscitou e que dariam um material experimental de grande qualidade para uma análise empírica das ideologias da ciência e de suas relações com a posição de seus autores no campo científico. É verdade que esse livro, que nunca se sabe se está descrevendo ou prescrevendo a lógica, da mudança científica[48], convida os leitores a nele procurarem respostas à questão da boa ou má ciência[49]. Por parte daquele que a linguagem nativa chama de "radicais", leu-se no livro de Thomas Kuhn um convite à "revolução" contra o "paradigma"[50], ou uma justificação do pluralismo liberal das world-views[51];51 duas tomadas de posição correspondendo, sem dúvida, a diferentes posições no campo. Por parte dos mantenedores da ordem científica estabelecida, nele um convite para tirar a sociologia de uma fase "pré-paradigmática" impondolhe uma constelação unificada de crenças, de valores e de técnicas que simboliza a tríade capitolina de Parsons e de Lazarsfeld reconciliados com Merton. A exaltação da quantificação, da formalização e da neutralidade ética, o desdém pela "filosofia" e a rejeição da ambição sistemática em proveito da minúcia da verificação empírica e da tímida conceptualização dita operacional das "teorias de médio alcance", são os traços obtidos por uma transmutação desesperadamente transparente do ser em dever-ser, que encontram sua justificação na necessidade de contribuir para o reforço dos "valores comunitários" tidos como condição de "ascensão".

Falsa ciência destinada a produzir e a manter a falsa consciência, a sociologia oficial (de quem a politicologia é, hoje, o mais belo ornamento) deve ostentar objetividade e "neutralidade ética" (isto é, neutralidade na luta entre as classes cuja existência, por outro lado, ela nega) manter as aparências de uma ruptura categórica com a classe dominante e suas demandas ideológicas, multiplicando os sinais exteriores de cientificidade: temos, assim, do lado do "empírico", a ostentação tecnológica e, do lado da "teoria", a retórica do "neo" (florescente também no campo artístico) que imita a acumulação científica aplicando a uma obra ou a um conjunto de obras do passado[52] o procedimento tipicamente erudito da "releitura" − operação paradigmaticamente escolar de simples reprodução (ou de reprodução simples) feita para produzir, nos limites do campo e de suas crenças, as aparências da "revolução". É preciso analisar sistematicamente essa retórica de cientificidade através da qual a "comunidade" dominante produz a crença no valor científico de seus produtos e na autoridade científica de seus membros: seja por exemplo, o conjunto das estratégias destinadas a dar aparência de acumulação, tais como a referência às fontes canônicas, geralmente reduzidas, como se diz, à "sua mais simples expressão" (pensemos, por exemplo, no destino póstumo do Suicídio), isto é, protocolos insípidos imitando o frio rigor do discurso científico, e aos artigos recentes, na medida do possível, sobre o mesmo assunto (é conhecida a oposição entre as ciências "duras" − hard − e as ciências "brandas" − soft); ou ainda as estratégias de fechamento, que entendem marcar uma separação categórica entre a problemática científica e os debates profanos e mundanos (sempre presentes mas a título de "fantasmas na máquina"), isto muitas vezes pelo preço de simples retraduções linguísticas; ou as estratégias de denegação, que florescem nos politicólogos, hábeis em realizar o ideal dominante da "objetividade" num discurso apolítico sobre a política onde a política recai cada só aparece sob aparências irreconhecíveis e, portanto, irrepreensíveis, da denegação politicológica[53]. Mas essas estratégias preenchem, além disso, uma função essencial: a circulação circular dos objetos das ideias, dos métodos e, sobretudo, do reconhecimento no interior de uma comunidade produz[54], como todo círculo de legitimidade, um universo de crenças que encontram seu equivalente tanto no campo religioso quanto no campo da literatura ou da alta costura[55].

Mas é preciso ainda evitar, aqui, dar à falsa ciência oficial a significação que lhe confere a crítica "radical". Apesar de sua discordância sobre o valor que eles conferem ao "paradigma", princípio de unificação necessário ao desenvolvimento de ciência num caso, força de repressão arbitrária no outro − ou alternadamente um e outro, para Kuhn − conservadores e "radicais", adversários e cúmplices, concordam de fato no essencial: pelo ponto de vista necessariamente unilateral que eles têm do campo científico ao escolher, pelo menos inconscientemente, um ou outro dos campos antagonistas, eles não podem perceber que o controle ou a censura não são exercidos por tal ou tal instância mas pela relação objetiva entre adversários cúmplices, que, pelo seu próprio antagonismo, delimitam o campo da discussão legítima, excluindo como sendo absurda, ou simplesmente impensável, qualquer tentativa de tomada de posição não prevista (neste caso particular, de colocar, por exemplo, a serviço de uma outra axiomática científica as ferramentas elaboradas pela ciência oficial)[56].

Expressão levemente eufêmica dos interesses dos dominados do campo científico, a ideologia "radical" tende a tratar toda revolução contra a ordem científica estabelecida como revolução científica. Assim ela faz, como se bastasse que uma "inovação" fosse excluída da ciência oficial para que ela pudesse ser considerada cientificamente revolucionária. A ideologia "radical" se omite, assim, de colocar a questão das condições sociais através das quais uma revolução contra a ordem científica estabelecida é também uma revolução científica e não uma simples heresia que visa derrubar a correlação de forças estabelecida no campo sem transformar os princípios sobre os quais repousa seu funcionamento[57]. Quanto aos dominantes, inclinados a admitir que a ordem científica na qual estão colocados todos os seus investimentos (no sentido da economia e da psicanálise) e de cujos lucros se apropriam é o dever-ser realizado, são logicamente levados a aderir à filosofia espontânea da ciência que se expressa na tradição positivista, forma de otimismo liberal que deseja que a ciência progrida pela força intrínseca da ideia verdadeira e que os mais "poderosos" sejam também os mais "competentes". Basta pensar nos antigos estados do campo das ciências da natureza ou no estado atual das ciências sociais para perceber a função ideológica de sociodicéia dessa filosofia da ciência que, dando o ideal por realizado, exclui a questão das condições sociais de realização desse ideal.

Ao se colocar que a própria sociologia da ciência funciona segundo as leis de funcionamento de todo campo científico, a sociologia da ciência não se condena de modo algum ao relativismo. Com efeito, uma sociologia científica da ciência (e a sociologia científica que ela contribui para tomar possível) só pode constituir-se com a condição de perceber claramente que às diferentes posições no campo científico associam-se representações da ciência, estratégias ideológicas disfarçadas em tomadas de posição epistemológicas através das quais os ocupantes de uma posição determinada visam justificar sua própria posição e as estratégias que eles colocam em ação para mantê-la ou melhorá-la e para desacreditar, ao mesmo tempo, os detentores da posição oposta e suas estratégias. Cada sociólogo é bom sociólogo de seus concorrentes, a sociologia do conhecimento ou da ciência nada mais sendo do que a forma mais irrepreensível das estratégias de desqualificação do adversário enquanto ela tomar por objeto os adversários e suas estratégias e não o sistema completo de estratégias, isto é, o campo das posições a partir do qual elas se engendram[58]. A sociologia da ciência só é tão difícil porque o sociólogo está em jogo no jogo que ele pretende descrever (seja, primeiramente, a cientificidade da sociologia e, em segundo lugar, a cientificidade da forma de sociologia que ele pratica); ele só poderá objetivar o que está em jogo e as estratégias correspondentes se tomar por objeto não somente as estratégias de seus adversários científicos, mas o jogo enquanto tal, que comanda também suas próprias estratégias, ameaçando governar subterraneamente sua sociologia, e sua sociologia da sociologia.

Extraído de: ORTIZ, Renato (org.). 1983. Bourdieu – Sociologia. São Paulo: Ática. Coleção Grandes Cientistas Sociais, vol. 39. p. 122-155.



[1] Reproduzido de BOURDIEU, P. Le champ scientifique. Actes de Ia Recherche en Sciences Sociales, n. 2/3, jun. 1976, p. 88-104. Tradução de Paula Montero.
[2] Duas observações rápidas para evitar possíveis mal-entendidos. Primeiramente, não se pode reduzir as relações objetivas que são constitutivas do campo ao conjunto das interações, no sentido do interacionismo, isto é, ao conjunto das estratégias que, na realidade, ele determina. Por outro lado, é necessário precisar o que significa ser socialmente reconhecido. Veremos que o grupo que confere esse reconhecimento tende, cada vez mais, a reduzir-se ao conjunto dos cientistas (ou concorrentes) à medida que crescem os recursos científicos acumulados e, correlativamente, a autonomia do campo.

[3] O conflito relatado por Sapolsky entre os partidários da fluorização, isto é, os detentores da autoridade oficial (health officials), que se estimam os únicos competentes em matéria de saúde pública, e os adversários dessa inovação, entre os quais contam-se inúmeros cientistas que, aos olhos oficiais, ultrapassam os "limites de seu próprio campo de competência", permite perceber claramente a verdade social da' competência como palavra autorizada e de autoridade que está em jogo na luta entre os grupos (cf. SAPOLSKY, H. M. Science, voters and the fluoridation controversy. Science, v. 162, 2S out. 1968, p. 427-33). Nunca o problema da competência se colocou com tanta acuidade e clareza como nas relações com os "profanos". (Ver BARNES, S. B. On the reception of scientific beliefs. In: ____., org. Sociology of science. Londres, Penguin, 1972. p. 269-91; BOLTANSKI, L. e MALDIDIER, P. Carriere scientifique morale scientifique et vulgarisation. Information sur les Sciences Sociales, 3 (9), 1970, p. 99- 118.)
[4] REIF, F. The competitive world of the pure scientist. Science, 15 dez. 1961, 134 (3494), p. 1957-62.
[5] Como faz Kuhn, quando sugere que as "revoluções científicas" só aparecem após o esgotamento dos paradigmas.
[6] Deve-se compreender, a partir da mesma lógica, as transferências de capital de um campo determinado para um campo socialmente inferior, onde uma competição menos intensa promete lucro maior ao detentor de um determinado capital científico.
[7] [Conflito social: distribuição de recursos intelectuais entre os diferentes tipos de trabalho sociológico. Conflito intelectual: oposição de ideias sociológicas rigorosamente formuladas. (N. do T.)] Ver MERTON, R. K. The sociology of science. Chicago e Londres, The University of Chicago Press, 1973. p. 55.
[8] Entre as inúmeras expressões desse credo neutralista, esta é particularmente típica: "Enquanto profissionais − universitários ou técnicos − os sociólogos se consideram essencialmente capazes de separar, em nome do sentido de responsabilidade social, sua ideologia pessoal de seu papel profissional nas suas relações com seus pares e clientes. Está claro que este é o resultado mais acabado da aplicação do conceito de profissionalização à sociologia, particularmente no período do ativismo universitário que começa em 1965. A partir da organização da sociologia como disciplina, muitos sociólogos tiveram ideologias pessoais muito intensas que os levavam a tentar colocar seus conhecimentos a serviço da transformação social, quando, enquanto universitários, eles deveriam afrontar o problema das normas que se impõem ao professor e ao pesquisador". (JANOWITZ, M. The American Journal of Sociology, 78, (1), jul. 1972, p. 105-35.)
[9] HAGSTROM, W. D. The scientific community. Nova York, Basic Books, 1965. p. 100.
[10] Fred Reif lembra que aqueles que, preocupados em ver seus trabalhos publicados o mais rapidamente possível, recorrem à imprensa cotidiana, atraem a reprovação de seus pares-concorrentes, em nome da distinção entre publicação e publicidade. Importantes descobertas em física, por exemplo, foram, assim, anunciadas no New York Times. A mesma distinção orienta as atitudes com relação a certas formas de vulgarização, sempre suspeitas de não serem mais do que formas eufemísticas de autodivulgação. Basta citar os comentários do editor do jornal oficial dos físicos americanos: "Por cortesia para com os colegas, os autores têm o hábito de impedir toda divulgação pública de seus artigos, antes de terem aparecido na revista científica. As descobertas científicas não são matérias de sensação para os jornais e todos os meios de comunicação de massa devem ter simultaneamente acesso à informação. De agora em diante, rejeitaremos todos os artigos cujo conteúdo já tenha sido publicado na imprensa cotidiana" (REIF, F. Op. cit.).
[11] A respeito desse ponto, ver BOURDIEU, P. Méthode scientifique et hierarchie sociale des objets. Actes de Ia Recherche en Sciences Sociales: 1, 1975, p. 4-6.
[12] Como a filosofia social de inspiração durkheimiana, que descreve o conflito social na linguagem da marginalidade, do desvio ou da anomia, essa filosofia da ciência tende a reduzir as relações de competição entre dominantes e dominados às relações entre "centro" e "periferia", reencontrando a metáfora imanentista cara a Halbwachs da distância aos "núcleos" dos valores centrais. (Ver, por exemplo, BUN-DAVID, J. The scientist's role in society. Englewood Cliffs (N. J.), Prentice Hall Inc., 1971 e SHILS, E. Center and periphery. In: The logic of personal Knowlegde, essays presented to Michael Polanyi on his seventieth birthday. Londres, Koutledge and Kegan Paul, 1961. p.117-30.).
[13] KUHN, T. S. The structure of scientific revolutions. Chicago, The University Of Chicago Press, 1962. p. 168.
[14] Ver, por exemplo, MERTON, R. K. Science and technology in a democratic order. Journal of Legal and Political Sociology, v. I, 1942. Reeditado em MERTON, R. K. Social theory and social structure (ed. rev.) Nova York, Free Press, 1967. p.550-1, sob o título "Science and democratic social structure”. Ver também BARBER, B. Scienee and the social order. Glencoe, The Free Press of Glencoe, 1952. p.73 e 83.
[15] Assim se explicam as diferentes estratégias que os pesquisadores utilizam na difusão dos preprints e reprints. Seria fácil demonstrar que todas as diferenças observadas segundo a disciplina, a idade dos pesquisadores ou a instituição à qual eles pertencem podem ser compreendidas a partir das diferentes funções que essas duas formas de comunicação científica preenchem. A primeira consiste em divulgar os produtos rapidamente, escapando aos prazos das publicações científicas (vantagem importante nos setores altamente competitivos), junto a um número restrito de leitores que são, muitas vezes, também os concorrentes mais competentes. A segunda consiste em divulgar mais amplamente, junto ao conjunto dos colegas ou da demanda, produtos marcados e socialmente imputados a um nome próprio. (Ver HAGSTROM, W. D. Factors related to the use of different modes of publishing research in four scientific fields. In: NELSON, C. E. e POLLOCK, D. K., orgs. Communication among scientists and engineers. Lexington (Mass.), Health Lemington Books, D. C. Heath and Co., 1970.)
[16] Daí as dificuldades que encontramos nas pesquisas sobre intelectuais, cientistas ou artistas, tanto nas entrevistas quanto na publicação dos resultados: propor o anonimato a pessoas que estão ocupadas em fazer um nome é suprimir a motivação principal da participação numa entrevista; não lhe propor é proibir-se de fazer perguntas "indiscretas", isto é, objetivantes e redutoras. A publicação dos resultados coloca problemas equivalentes, nem que seja pelo fato de que o anonimato tem, como efeito, tornar o discurso ininteligível ou transparente segundo o grau de informação dos leitores (e isto mais ainda nesses casos, visto que muitas posições só contam com um elemento: um nome próprio)
[17] ZUCKERMAN, H. A. Patterns of name ordering among authors of scientific papers: a study of social symbolism and its ambiguity. American Journal of Sociology, 74 (3), novo 1968, p. 276- 91.
[18] O modelo aqui proposto explica perfeitamente − sem apelar para nenhuma determinante moral − o fato de que os laureados cedem o lugar de destaque mais frequentemente depois da obtenção do prêmio e de que sua contribuição para a pesquisa coroada de êxito é mais visivelmente marcante que a contribuição que eles tiveram em outras pesquisas coletivas.
[19] Ver, por exemplo, HAROBNS, L. L. e HAOSTROM, W. D. Sponsored and contest mobility of american academic scientists. Sociology of Education, 40 (1), inverno 1967, p. 24-38.
[20] Ver BOURDIEU, P., BOLTANSKI, L. e MALDIDIER, P. La défense du corps. Information sur les Sciences Sociales, 10 (4), p. 45-86.
[21] A análise estatística mostra, por exemplo, que, para o conjunto das gerações passadas, a idade de produtividade científica máxima se situa entre 26 e 30 anos para os químicos, entre 30 e 34 para os físicos e os matemáticos, entre 35 e 39 para os bacteriologistas, os geólogos e os fisiologistas (LEHMAN, H. C. Age and achievement. Princeton, Princeton University Press, 1953).
[22] Ver REIF, F. e STRAUSS, A. The impact of rapid discovery upon the scientist's career. Social Problems, inverno, 1965, p. 297-311. A comparação sistemática deste artigo − para o qual o físico colaborou com o sociólogo − com o que escrevia o físico alguns anos antes, forneceria ensinamentos excepcionais sobre o funcionamento do pensamento sociológico americano. Basta indicar que a "conceituação" (isto é, a tradução de conceitos para o jargão da disciplina) tem, como contrapartida, o desaparecimento total da referência ao campo no seu conjunto e, em, particular, ao sistema de trajetórias (ou de carreiras) que confere, a cada carreira singular, suas propriedades mais importantes.
[23] Ver GLASER, B. G. Variations in the importance of recognition in scientist's career. Social Problems, 10 (3), inverno 1963, p. 268-76.
[24] Para evitar refazer, aqui, toda a demonstração, contento-me em remeter a BOURDIEU, P. Les catégories de l'entendement professoral. Actes de Ia Recherche en Sciences Sociales, 3, maio 1975, p. 68-93.
[25] Sobre a ação de "filtragem" dos comitês de redação das revistas científicas (em ciências sociais), ver CRANE, D. The gate-keepers of science: some factors affecting the selection of articles for scientific joumals. American Sociologist, 11, 1967, p. 195-201. Tudo permite pensar que, em matéria de produção científica como em matéria de produção literária, os autores selecionam, consciente ou inconscientemente, os lugares de publicação em função da ideia que eles têm de suas "normas". Tudo nos leva a pensar que a auto-eliminação, evidentemente menos perceptível, é ao menos tão importante quanto a eliminação expressa (sem falar do efeito que produz a imposição de uma norma do publicável).
[26] Veremos, adiante, a forma original que essa transmissão regulada do capital científico reveste, nos campos onde, como na física de hoje, a conservação e a subversão são quase indiscerníveis.
[27] FEUER, L. S. The social roots of Einstein's theory of relativity. Anals of Science, v. 27, n. 3, set. 1971, p. 278-98 e n. 4, dez. 1971, p. 313-44.
[28] Ver SAINT-MARTIN, M. de. Les fonctions sociales de l'enseignement scientifique. Paris-La Haye, Mouton, col. Cahiers du Centre de Sociologie Europeenne, n. 8, 1971 e BOURDIEU, P. e SAINT-MARTIN, M. de. Le systeme des grandes écoles et la reproduction de ia classe dominante, no prelo
[29] É tal mecanismo que tende a assegurar o controle das relações com o universo exterior, com os leigos. (Ver BoLTANSKI, L. e MALDIDIBR, P. Op. cit.).
[30] Não há dúvida, com efeito, que a filosofia da história da ciência proposta por Kuhn, com a alternância de concentração monopolística (paradigma) e de revolução, deve muito ao caso particular da revolução "copernicana" tal qual ele a analisa e que considera "típica de qualquer revolução maior da ciência" (KUHN, T. S. La révolution copernicienne. Paris, Fayard, 1973. p.153 e 162): sendo ainda muito fraca, a autonomia relativa da ciência em relação ao poder e, em particular, em relação à Igreja, a revolução científica (na astronomia matemática) passa pela revolução política e supõe uma revolução de todas as disciplinas científicas que pode ter efeitos políticos.
[31] Além de Bachelard e Reif, D. Bloor percebeu que as transformações na organização social da ciência determinaram uma transformação na natureza das revoluções científicas (ver BLOOR, D. Essay Review: two paradigms for scientific knowledge? Science Studies, 1, 1971, p.101-15).
[32] BACHELARD, G. Le matérialisme rationnel. Paris, P. U. F., 1953. p.41.
[33] A principal censura é constituída por esse direito de entrada, isto é, pelas condições de acesso ao campo científico e ao sistema de ensino que a ele dá acesso. É o caso de se interrogar sobre as propriedades que as ciências da natureza (sem falar das ciências do homem, onde, pela fragilidade dos métodos, a maior liberdade é deixada aos habitus) devem seu recrutamento social, grosso modo, às condições de acesso ao ensino superior (ver SAINTMARTIN, M. de. Op. cit.).
[34] Sabe-se que as próprias revoluções inaugurais que dão nascimento a um novo campo, constituindo, pela ruptura, um novo domínio de objetividade, se devem quase sempre aos detentores de um grande capital científico que, em virtude de variáveis secundárias (tais como o fato de pertencer a uma classe social ou a uma etnia improvável nesse universo) se encontram numa posição de desequilíbrio própria a favorecer uma inclinação revolucionária: é o caso, por exemplo, dos novatos que importam para um campo o capital acumulado num campo socialmente superior (ver BBN-DAVID, J. Roles and innovation in medicine. American Journal of Sociology. 65, 1960, p.557-68 e BEN-DAVID, J. e COLLINS, R. Social factors in origins of a new science: the case of psychology. American Sociological Review, 31, 1966, p.451-65).
[35] Vimos, acima, a descrição que Reif nos dá sobre a forma mais frequente que a acumulação de capital toma em tal estado do campo.
[36] Existe um consenso, com efeito, de que a luta científica se torna cada vez mais intensa (apesar das consequências da especialização que tende a reduzir, sem cessar, o universo dos concorrentes pela divisão em subcampos cada vez mais estreitamente especificados) na medida em que a ciência avança ou, mais precisamente, na medida em que os recursos científicos acumulados aumentam e que o capital necessário para realizar a invenção se torna mais larga e uniformemente distribuído entre os concorrentes pela ampliação do direito de entrada no campo.
[37] O conjunto dos processos que acompanham a autonomização do campo científico mantém relações dialéticas: assim, a ampliação contínua do direito de entrada que a acumulação de recursos específicos implica contribui em troca para a autonomização do campo científico instaurando, indiretamente, um corte social como o mundo profano dos leigos.
[38] O habitus primeiro produzido pela educação de classe e o habitus secundário inculcado pela educação escolar contribuem, com pesos diferentes no caso das ciências sociais e das ciências da natureza, para determinar uma adesão pré-reflexiva aos pressupostos tácitos do campo (sobre o papel da socialização, ver HAGSTROM, W. D. Sponsored and contest mobility..., cit., p. 9 e KUHN, T. S. The function of dogma in scientific research. In: CROMBIE, A. C., org. Scientific change. Londres, Heineman, 1963. p. 347-69).
[39] Vemos o que poderia tornar-se a etnometodologia (mas seria ela ainda uma etnometodologia?) se ela soubesse que aquilo que ela toma como objeto, o taken for granted de Schutz, é a adesão pré-reflexiva à ordem estabelecida.
[40] No campo da produção ideológica (do qual participam ainda os diferentes campos da produção de discursos científicos ou letrados), o fundamento do consenso na dissensão que define a doxa reside, como veremos, na relação censurada do campo de produção do poder (isto é, na função oculta do campo da luta de classes).
[41] BACHELARD, G. Op. cit., p.216-17.
[42] Assim, os sistemas de classificação (taxionomias), que são uma das questões essenciais da luta ideológica entre as classes (ver BOURDIEU, P. e BOLTANSKI, L. Le titre et le poste: rapports entre le systeme de production et le systeme de reproduction. Actes de la Recherche en Sciences Sociales, 2, 1975, p. 95-107), constituem, através das tomadas de posição a respeito da existência ou da não-existência das classes sociais − um dos grandes princípios de divisão do campo sociológico (ver BOURDIEU, P. Classes et classement. Minuit, 5, 1973, p.22- 4 e COXON, A. P. A. e JONES, C. L. Occupational categorization and images of society. Working Paper, n. 4, Project on Ocupational Cognition, Edinburgh, Edinburgh University Press, 1974).
[43] Segue-se daí que a sociologia da ciência (e, em particular, da relação que a ciência social mantém com a classe dominante) não é uma especialidade entre outras, mas faz parte das condições de uma sociologia científica.
[44] GERSCHENKRON, A. Economic backwardness in historical perspective. Cambridge, Harvard University Press, 1962. p.7.
[45] A filosofia da história que persegue a história social da ciência social encontra uma expressão paradigmática na obra de Terry Clark que Paul Vogt caracteriza sociologicamente, numa resenha, com dois adjetivos: ''Terry N. Clark's long-awaited, much circulated in manuscript Prophets and Patrons". (Ver CLARK, T. N. Prophets and patrons, the french university and the emergency of the social science. Cambridge, Harvard University Press, 1973 e CHAMBOREDON, J. C. Sociologie de Ia sociologie et intérêts sociaux des sociologues. Actes de Ia Recherche en Sciences Sociales, 2, 1975, p.2-17.).
[46] Joseph Ben-David tem o mérito de dar a essa tese sua forma mais direta: o alto grau de competição que caracteriza a universidade americana explica sua maior produtividade científica e sua maior flexibilidade (BEN-DAVID, J. Scientific productivity and academic organization in nineteenth century medicine. American Sociological Review, 25, 1960, p. 828-43); Fundamental research and the universities. Paris, O. C. D. E., 1968; BEN-DAVlD, J. e ZLOCZOWER, Avraham, Universities and academic systems in modern societies. European Journal of Sociology, 3, 1962, p.45-84).
[47] KUHN, T. S. The structure of scientific revolutions, op. cit.
[48] Exemplo de prescrição larvar: a: existência de um paradigma é um sinal de maturidade científica.
[49] Mais ainda do que nesse livro − cujas teses fundamentais não têm nada de radicalmente novo, ao menos para os leitores de Bachelard, objeto, ele próprio, pouco mais ou menos no mesmo momento e numa outra tradição, de uma captação semelhante − a intenção normativa pode ser notada em dois artigos de T. S. Kuhn onde ele descreve as funções positivas para o desenvolvimento científico de um pensamento "convergente" e sustenta que a adesão dogmática a uma tradição é favorável à pesquisa (KUHN, T. S. The function of dogma in scientific research, cit., p.347-69 e The essential tension: tradition and innovation in scientific research. In: HUDSON, L., org. The ecology of human intelligence. Londres, Penguin, 1970. p. 342-59).
[50] Ver, por exemplo, GOULDNER, A. W. The coming crisis of western sociology, Nova YorkLondres, Basic Books, 1970 e FRlEDRICHS, R. W. A sociology of sociology, Nova York, Free Press, 1970.
[51] GELLNER, E. Myth, ideology and revolution. In: CRICK, B. e ROBSON, W. A., orgs. Protest and discontent. Londres, Penguin, 1970. p.204-20.
[52] Ver PARSONS, T. The structure of social action. Nova York, Free Press, 1968.
[53] Ver BOURDIEU, P. Les doxosophes. Minuit, I, 1973, p. 26-45 (em particular a análise do efeito Lipset).
[54] A sociologia oficial da ciência oferece uma justificação para cada um desses traços. Assim, por exemplo, o evitar problemas teóricos fundamentais encontra uma justificação na idéia de que, nas ciências da natureza, os pesquisadores não se preocupam com a filosofia da ciência (ver HAGSTROM, W. D. Sponsored and contest mobility..., cit., p. 277-79). Pode-se ver sem dificuldade o que a tal da sociologia da ciência deve à necessidade de legitimar um estado de fato e de transformar os limites a que está submetida em exclusões eletivas.
[55] Sobre a produção da crença e do fetichismo no campo da alta costura, ver BOURDIBU, P. e DBLSAUT, Y, Le couturier et sa griffe. Contribution à une théorie de Ia magie, Actes de Ia Recherche en Sciences Sociales, 1 (1), jan. 1975, p.7-36.
[56] Tais pares epistemológicos, que são ao mesmo tempo pares sociológicos, funcionam. em qualquer campo (ver, por exemplo, o Positivismusstreit, que opõe Habermas e Popper no caso da Alemanha − mecanismo de derivação que, tendo sido testado na Europa, começa a fazer estragos nos EUA com a importação da Escola de Frankfurt).
[57] É preciso analisar todos os usos estratégicos que os dominados de um campo podem fazer da transfiguração ideológica de sua posição objetiva: por exemplo, a exibição da exclusão que permite aos excluídos tirar ainda partido da instituição (que eles reconhecem bastante ao criticá-la por não reconhecê-los), fazendo da exclusão uma garantia de cientificidade; ou, ainda, a contestação da "competência" dos dominantes, que está no centro de todo movimento herético (ver a contestação do monopólio da sagração) e que deve tanto menos armar-se de argumentos científicos quanto mais fraco for o capital científico acumulado etc.
[58] Sobre a necessidade de construir, enquanto tal, o campo intelectual para tornar possível uma sociologia dos intelectuais que seja algo além de uma troca de injúrias e de anátemas entre "intelectuais de direita" e "intelectuais de esquerda", ver BOURDIEU, P. Les fractions de Ia classe dominante et les modes d'appropriation de l'oeuvre d'art. lnformation sur les Sciences Sociales, 13 (3), 1974, p. 7-32.